Introdução

Outrora, quando o Mestre ainda vivia, muitos, movidos pelo mesmo empenho, vinham até a distante capital1, com a mente fixa na mesma fé e firmes na esperança de alcançar a Terra Pura. Todos nós então ouvimos juntos a mensagem do Mestre. Trazidos por eles vieram numerosos elementos, velhos e jovens, que recentemente andam divulgando doutrinas diferentes das palavras do Mestre, pelo que tenho ouvido. É meu desejo demonstrar de maneira concreta como estas doutrinas não têm fundamento.

Capítulo XI

Há pessoas que, vendo fiéis iletrados praticando o Nembutsu, assustam-nos, interpelando-os se eles o praticam crendo no Mistério do Voto ou no Mistério do Nome(1). Não explicam elas com clareza as relações, entre ambos os Mistérios, provocando confusão na mente.

É necessário que detenhamos os nossos pensamentos nesse ponto com insistência, para chegar a uma conclusão.

Através do Mistério do Voto, o Buda nos proporcionou Nome fácil de ser guardado e de ser recitado, prometendo receber em seu seio todo aquele que recitar esse Nome. Assim, devemos em primeiro lugar crer que, salvos pelo Mistério do Grande Voto da Grande Compaixão de Amida, nós nos libertaremos do mundo dos nascimentos e das mortes. O próprio Nembutsu que nós recitamos é de iniciativa do tathagata(2). Se tomarmos consciência disso, veremos que nele não deve se imiscuir a mínima parcela de iniciativa pessoal. Assim, sintonizando-nos com o Voto Original, iremos nascer na Verdadeira Terra Pura.

Dessa forma, se tivermos por centro de nossa Fé o Mistério do Voto, nele naturalmente estará contido também o Mistério do Nome. Os Mistérios do Voto e do Nome são originariamente um só, de nenhuma maneira podem ser considerados diferentes.

Além disso, se levarmos em conta a vontade de cada um, considerando que o bem conduz a salvação e o mal a impede, teremos um Nembutsu praticado como ascese pessoal, que não busca apoio no Mistério do Voto e representa um esforço da mente no sentido de acumular atos meritórios que propiciem o ir-nascer. As pessoas que assim pensam ainda não crêem no Mistério do Nome. Entretanto ainda que elas não creiam, irão nascer nas regiões limítrofes da Terra Pura, onde vão ter os preguiçosos ou na Terra Pura sombria como o útero materno, onde vão nascer os que tem dúvidas(3) e, finalmente, graças ao Voto pelo qual Amida jura salvar os que praticam o Nembutsu como esforço pessoal, alcançarão também o ir-nascer na Verdadeira Terra Pura, pelo poder do Mistério do Nome. Como tudo isso é devido ao Mistério do Voto, ambos os Mistérios, em suma são um só.

Notas

  1. O Voto Original de Amida é a recitação de seu Nome. A expressão “mistério” explica-se pelo fato da salvação através do Voto Original de Amida e da recitação de seu Nome ser algo que o pensamento conceitual do homem não consegue captar.
  2. Aquele que vem do Real, um dos epítetos de Buda.
  3. Regiões que simbolizam estágios provisórios, experimentado por aqueles que ainda não atingiram o perfeito desprendimento simbolizado pelo ir-nascer na Verdadeira Terra Pura.

Capítulo XII

Há os que dizem que os que não lêem os Sutras(1) e os Tratados(2) não terão seu ir-nascer definitivamente garantido.

Essa opinião não tem absolutamente fundamento algum. Os textos sagrados que esclarecem a essência do genuíno ensinamento da Terra Pura mostram que crendo no Voto Original e recitando o Nembutsu nós nos tornamos Budas. Que espécie de estudo então será necessário, além disso, para o ir-nascer?

Aqueles que têm dúvidas quanto a esse ponto precisarão realmente se aplicarem ao estudo para compreender a essência do Voto Original. Aqueles que, mesmo lendo os Sutras e os Tratados, não conseguem captar o fundamento da Sagrada Doutrina(3), são dignos de dó.

O Nome(4) é de natureza de ser facilmente recitado por aqueles que não sabem ler uma única letra e não podem se orientar pelos caminhos dos Sutras e dos Tratados. Por isso mesmo é ele chamado o Caminho Fácil. O estudo é exigido pelo Caminho Sagrado(5), que por isso é chamado Caminho Difícil. Aqueles que erradamente se entregam ao estudo visando honrarias e riquezas não poderão esperar o ir-nascer na Terra Pura em sua próxima existência, dizem os textos.

Recentemente os Seguidores do Puro Nembutsu e os partidários do Caminho Sagrado tem realizado polêmicas proclamando a excelência de suas doutrinas pessoais e a inferioridade das doutrinas seguidas por outrem. Isso tem provocado animosidade e hostilidade entre os religiosos. Entretanto, hostilizar a doutrina alheia acaso não significa, em suma, desprestigiar sua própria doutrina?

Ainda que todas as escolas proclamem unanimemente ser o Nembutsu uma doutrina vil e superficial, os fiéis, ao invés de polemizarem, deverão responder da seguinte maneira:

— Nós, pessoas insignificantes e inferiores que não tem nenhuma instrução seguimos essa doutrina porque ela nos diz que seremos salvos se tivermos Fé. Para pessoas de caráter superior ela será realmente vil, mas para nós ela representa a Doutrina Suprema. Ainda que as demais doutrinas sejam superiores, não podemos segui-las, pois estão acima de nossa capacidade. Uma vez que a vontade de Buda é que nós e as demais pessoas sejam igualmente salvas dos nascimentos e das mortes, por favor, não criem obstáculos a que sejamos salvos através do Nembutsu.

Se nós respondermos assim, com mansidão e sem ódio, ninguém nos hostilizará. Além disso, os textos dizem que as disputas provocam o desencadear das paixões e que os sábios delas devem permanecer distantes(6).

O Falecido Mestre(7) dizia que, segundo Buda, esta doutrina, além dos seguidores, deverá ter também inimigos. Nós já nela cremos. O fato de surgirem pessoas que a hostilizam demonstra apenas a veracidade das palavras de Buda. Assim, devemos ter mais confiança ainda na infalibilidade de nosso ir-nascer. No caso de existirem apenas Isso não significa, porém que devemos querer que nos hostilizem. Saibamos apenas quem Buda, sabendo de antemão que surgiriam tanto crentes como detratores, assim proclamou para eliminar nossas dúvidas.

Será que atualmente as pessoas só se entregam ao estudo com o objetivo de se entregarem a polêmicas e disputas?

O estudo deve nos levar a conhecer melhor a vontade do Tathagata e a profundidade do Voto Compassivo. A utilidade dos eruditos está em poderem eles mostrar que o Voto Original não faz distinção entre bem e mal, pureza e impureza àqueles que duvidam que os humildes e ignorantes consigam o ir-nascer.

Aqueles que interpretam as pessoas que praticam o Nembutsu de acordo com o Voto Original, sem dúvidas ou hesitações, falando-lhes que é através do estudo que se consegue a salvação, são demônios hostilizadores da Doutrina. São inimigos de Buda. Não só sua crença no Outro Poder é insuficiente, como também sua atitude errônea provoca confusão entre os outros. Que se abstenham com temor de semelhante atitude.

Devemos ter pena daqueles que se voltam contra a vontade do Falecido Mestre e assumem posições contrárias ao Voto Original de Amida.

Notas

  1. Textos que expõem as doutrinas do Budismo sob a forma de discursos atribuídos ao Buda Shakyamuni.
  2. Textos filosóficos em que os grandes Doutores do Budismo comentavam os Sutras e aprofundavam pontos da Doutrina Budista.
  3. A Doutrina da Terra Pura.
  4. O Nome Salvador de Amida, o Nembutsu.
  5. Denominação dada pelos amidistas ao Budismo Ortodoxo, que preconiza a realização do homem obtida através de seu próprio esforço.
  6. Através deste texto nós vemos que Shinran e os amidistas se mantém fiéis ao espírito de tolerância e ao pacifismo que caracterizam o Budismo.
  7. Shinran.

Capítulo XIII

Existem aquele que dizem que, por misterioso que seja o Voto Original de Amida, não temer o mal do Voto Original e aqueles que assim fizerem não conseguirão o Renascimento.

Tal opinião revela descrença do Voto Original e desconhecimento das relações de bem e do mal com o condicionamento Kármico(1). As boas intenções surgem quando há um bom condicionamento kármico e o mal, no pensamento e na ação, ocorre quando há um mau Karma. O Falecido Mestre disse que devemos estar cientes que mesmo a mais insignificante falta, tão pequena a ponto de caber na ponta de um pelo de coelho ou carneiro, depende do condicionamento kármico.

Certa ocasião o Mestre me perguntou:

— Yui-en, tu crês em tudo o que eu digo?

— Sim, — respondi eu.

— Então, certamente não deixarás de agir de acordo com minhas palavras — insistiu ele.

— Com certeza que não! — repliquei respeitosamente.

— Ah! Sendo assim, mata mil pessoas! Com isso teu ir-nascer estará garantido! — disse ele.

Então eu disse:

— Embora o Mestre me diga tal coisa, minha natureza é tal que não me sinto capaz de matar uma pessoa que seja.

Ouvindo minhas palavras, o Mestre comentou:

— Ah! Então porque tu prometeste agora mesmo agir de acordo com minhas palavras? Compreendes agora? Se fosses capaz de agir conforme tua vontade, em quaisquer circunstâncias, certamente não deixarias de ir imediatamente matar mil pessoas, se disso dependesse tua salvação. Entretanto, como não tens um condicionamento kármico que te permita matar uma pessoa, que seja, não te sentes disposto a isso. Não penses que tu deixas de matar por teres bom coração. Pode surgir uma situação em que, embora não querendo matar ninguém tu mates cem ou mil pessoas.

Com essas palavras o Mestre quis mostrar que quando conceituamos nosso coração como bom ou mau estamos nos esquecendo de que somos salvos pelo Mistério do Voto.
Outrora houve uma pessoa que levada por uma opinião errônea, afirmou que, uma vez que o objetivo do Voto é salvar aqueles que praticam o mal, devemos praticar o mal propositalmente, como uma atividade necessária para o ir-nascer. Proclamando tal coisa essa pessoa atraiu sobre si a reprovação geral. Numa carta, o Mestre afirmou:

— Não é pelo fato de existir o remédio que nós iremos propositalmente nos entregarmos ao veneno.

Ele assim falou para eliminar o apego a essa opinião errônea. Não devemos concluir daí que o mal seja obstáculo à salvação.

Se só aqueles que conseguem obedecer aos Preceitos(2) estivessem em condições de crer no Voto Original, como nós poderíamos nos libertar dos nascimentos e das mortes? Pessoas vis como nós só podem realmente viverem confiantes graças ao encontro com o Voto Original! Entretanto, ainda que intentemos praticar um mal que não está em nós, não o conseguiremos.

O Mestre disse:

— Aqueles que lançam redes no mar e nos rios e vivem da pesca, aqueles que vivem da caça de javalis e pássaros nas montanhas(3), aqueles que vivem do comércio(4) e aqueles que vivem da agricultura(5) são igualmente seres humanos. Os homens são capazes de cometer quaisquer ações desde que impulsionados pelo Karma adequado.

Entretanto, atualmente existem pessoas que agem como se fossem legítimos crentes em busca do ir-nascer e proclamam que só os bons podem praticar o Nembutsu. Há também os que pregam cartazes nas portas das casas de reunião(6), proibindo a entrada dos que cometeram tais e quais ações. Aparentam assim serem diligentes e esclarecidos praticantes do Budismo, mas seu coração está cheio de falsidade e hipocrisia. Os que, abusando do Voto, cometem más ações, também o fazem impulsionados pelo seu condicionamento kármico. Em suma, a crença no Outro Poder consiste em confiar exclusivamente no Voto Original, deixando todo bem e todo mal por conta do Karma acumulado anteriormente. No Yuishinshô(7) está escrito o seguinte:

— Por acaso sois capazes de medir o poder de Buda, para afirmardes que aqueles que tem mau karma não serão salvos?

Em suma, é na tendência em viver plenamente confiante no Voto Original que se firma a crença na Terra Pura.

Se formos crer no Voto Original após extinguirmos o mau karma e as paixões, aí sim não haveria mais abuso de confiança em relação ao Voto Original, mas nesse caso, sendo eliminadas todas as paixões, o homem já teria se tornado um Buda. O Voto em que Amida meditou durante cinco kalpas(8) é perfeitamente inútil para um Buda.

Mesmo aqueles que advertem contra o uso de confiança em relação ao Voto? Quais são as más ações que representam um abuso do Voto e quais as que não representam? Em suma, tais distinções só revelam superficialidade.

Notas

  1. Traduzimos por “condicionamento kármico”, a expressão shukugô, um dos termos-chave do vocabulário da religião de Shinran. Karma ou Karmam é um termo sânscrito que significa “ação”, “atividade”. Segundo o Budismo e a maior parte das doutrinas indianas, nossa situação atual de felicidade ou desdita é condicionada pelo Karma ou soma de atividades boas ou más que efetuamos no passado, nesta mesma vida ou em vidas anteriores. O Karma leva em conta as atividades da mente (pensamento), da boca (palavras) e do corpo (ações). Da mesma forma, nossa condição futura será determinada pelo Karma que acumulamos no presente. Quando Shinran fala em condicionamento kármico, quer ele mostrar que a situação atual do homem depende de todo um condicionamento anterior e que sua conduta, boa ou má, será necessariamente influenciada por esse condicionamento, Shinran mostra assim o caráter contingente e relativo do ser humano, cuja conduta necessariamente será também contingente e relativa. Não podemos exigir do homem a prática do bem absoluto nem condená-lo por praticar o mal porque todo bem ou mal que ele praticar está em última análise dependendo de seu condicionamento kármico. Para Shinran, a auto-análise em termos de condicionamento kármico nos leva a reconhecer nossa fraqueza, nossa impotência e nossa ignorância. Entretanto, tal análise não nos deve levar ao desespero, pois, quanto maior for nossa fraqueza, tanto maio será a Compaixão que Amida derrama sobre nós, através de seu Voto Original. Em linguagem atual, diríamos que o condicionamento kármico é a soma de todos os fatores de natureza histórica, sócio-cultural, biológica e genética que está por detrás das ações de cada indivíduo, que por isso mesmo serão relativas e contingentes.
  2. Desde os tempos de Buda a Comunidade monástica fundada por Shakyamuni regula sua vida por uma série de preceitos instituída pelo Fundador e modificados através dos tempos conforme as contingências históricas. Os Preceitos variam em número e conteúdo conforme a época, o país e a escola budista considerada. Os Preceitos comuns a todas as escolas de todas as épocas, que devem ser seguidos tanto por monges quanto por leigos, são os chamados Cinco Preceitos Básicos (Panca Silla), a saber:
    1) Não matar nenhum ser vivo.
    2) Não roubar.
    3) Não ter relações sexuais (para os monges).
    4) Não mentir.
    5) Não vender bebida (por extensão, não iludir o próximo).
    (outra versão estabelece: não aceitar doutrinas errôneas).
    O movimento de Shinran, que representa uma corrente toda especial dentro da História do Budismo, coloca totalmente de lado a questão dos Preceitos, tanto para monges quanto para leigos, pelas razões expostas no presente capítulo do Tannishô, bem como pelas que foram expostas no Capítulo III.
  3. A pesca e a caça são consideradas atividades maléficas pelo Budismo, por violarem o primeiro preceito que reclama respeito a todos os seres viventes.
  4. O comércio era considerado uma profissão vil na Idade Média, tanto no Japão como no Ocidente.
  5. Os agricultores também viviam em péssimas condições na Idade Média, tanto no Oriente como no Ocidente.
  6. Shinran, como apóstolo do Budismo popular, nunca se interessou pela construção de templos grandiosos no estilo do antigo Budismo Monástico, associado à classe dominante. Aconselhava os fiéis a construírem simples casas de reuniões apenas um pouco maiores que as residências comuns da gente do campo. Ao invés das suntuosas imagens douradas dos antigos templos, um simples papel onde era escrito o nome de Amida constituía o objeto de veneração dos fiéis.
  7. Notas sobre a Fé Pura, coletânea de palavras de Honen, muito citada por Shinran.
  8. Segundo a tradição revelada nos textos Amidistas, Amida estabeleceu seu Voto Salvador através de uma profunda meditação que durou cinco Kalpas, ou seja, cinco ciclos cósmicos.

Capítulo XIV

Há os que proclamam que é necessário crer que a recitação de um único Nembutsu é capaz de eliminar o pesado Karma acumulado durante oito bilhões de Kalpas.

Essa tese consiste em afirmar que os perversos que durante sua vida praticaram as dez más ações(1) e as cinco perversidades(2), sem jamais terem praticado o Nembutsu, poderão ser salvos por um instrutor que lhes diga na hora da morte que a recitação de um Nembutsu elimina o pesado karma de oito milhões de Kalpas, proporcionando o ir-nascer(3).

Isso foi escrito para que possamos avalia a gravidade das dez más ações e das cinco perversidades e para que possamos saber quão grande é o poder da fé que apaga tais culpas. De maneira alguma nossa fé deve ser restringida a isso, porque é quando somos iluminados pela Luz de Amida(4) que em nós brota a fé manifestada através de uma recitação do Nembutsu e que então alcançamos uma fé inquebrantável como o diamante, que nos faz ingressar no círculo daqueles que têm o ir-nascer absolutamente garantido. Na hora da morte, nossas incontáveis paixões e ilusões são transformadas e despertamos para o conhecimento do Real Não-Nascido e Imperecível.

Sem esse Voto Compassivo, como poderiam os desgraçados culpados se libertarem dos nascimentos e das mortes? Meditando sobre esse ponto, chegaremos à conclusão que todos os Nembutsu que recitamos durante toda a nossa vida visam manifestar nossa gratidão em relação ou benefício que nos foi concedido pela Graça Compassiva do Tathagata.

Acreditar que, à medida que recitamos o Nembutsu estamos apagando nossas faltas, implica em que estamos nos esforçando para alcançar a Terra Pura realizando práticas que nos libertam das culpas. Se assim for, na medida em que todos os nossos pensamentos desta vida são cadeias que nos prendem aos nascimentos e às mortes, teremos que recitar o Nembutsu constantemente, até o instante de nossa morte. Entretanto, vivemos presos às contingências do Karma, sujeitos a acidentes inesperados e a doenças que podem perturbar nossa razão e nos impedir de recitar o Nembutsu na hora da morte(5). Como poderemos então apagar as faltas referentes a esse lapso de tempo? Será que não poderemos ir-nascer, se as faltas não tiverem sido apagadas? Se nós confiamos no Voto que absolutamente não nos abandona, ainda que surjam imprevistos, que cometamos faltas e expiremos sem recitar o Nembutsu, alcançaremos imediatamente o ir-nascer.

Além disso, se nós recitamos o Nembutsu na hora da morte e se, à medida que se aproxima o momento de nossa Realização nós passamos a confiar cada vez mais em Amida, isso ocorre porque nós nos sentimos cada vez mais gratos em relação à Graça recebida.

Aquele que intenta apagar suas culpas tem fé em suas próprias forças, intenta conseguir recitar o Nembutsu na hora da morte e não possui a genuína crença no Outro Poder.

Notas

  1. As dez más ações são:
    1 – matar
    2 – roubar
    3 – cometer adultério
    4 – Mentir
    5 – usar linguagem ambígua
    6 – falar mal do próximo
    7 – adular
    8 – não controlar os desejos
    9 – entregar-se à cólera
    10 – aceitar doutrinas errôneas
  2. As cinco perversidades são:
    1 – matar o pai
    2 – matar a mãe
    3 – matar um mestre
    4 – perturbar a harmonia da Comunidade Budista
    5 – derramar o sangue de um Buda
  3. Essa afirmação realmente conta dos Sutras básicos do Amidismo.
  4. Símbolo da Infinita Sabedoria e da Infinita Compaixão de Amida.
  5. No Japão da época estava muito difundida a crença de que recitar o Nembutsu na hora da morte era condição necessária para alcançar ir-nascer na Terra Pura.

Capítulo XV

Há os que ensinam que podemos alcançar a iluminação com este mesmo corpo carregado de paixões.

Essa opinião é totalmente absurda.

A Realização Búdica Aqui e Agora com nosso corpo de carne é a tese central da Escola Esotérica Shingon(1), é o resultado da prática da Yoga dos Três Segredos(2). A Purificação das Três Raízes do Conhecimento(3) é a tese da Escola do Veículo Uno do Sutra do Lótus(4) e resulta da Prática do exercício das Quatro Bem-Aventuranças(5).

São práticas difíceis destinadas às pessoas de caráter elevado, que propiciam a Realização com base na meditação e na contemplação.

Já a tese da Realização na Vida Futura é o ponto central da Doutrina da Terra Pura e do Outro Poder, por ser o caminho que se baseia no estabelecimento da fé. É a Prática Fácil destinada às pessoas de caráter inferior, que promete a salvação às pessoas sem cogitar se elas são boas ou más.

Em suma, como é extremamente difícil conseguir a eliminação dos desejos e das imperfeições nesta vida, os próprios praticantes da Escola Shingon e da Escola do Lótus acabam por orar pela Realização na Vida Futura(6). Com muito maior razão nós, que somos incapazes de praticar os preceitos e de alcançar a Sabedoria pelo estudo embarcamos na Nave do Voto de Amida para transpor o penoso oceano dos nascimentos e das mortes. Alcançando assim as praias da Terra Pura, as nuvens negras das paixões se dissiparão e a Lua da Realização do Real brilhará com toda a sua pureza. Nossa luz se fundirá com a Luz de Amida que ilumina plenamente todo o Universo e estaremos em condições de beneficiar todos os seres viventes. Nisso é que constitui a Realização.

As pessoas que intentam conseguir a Iluminação com seu próprio corpo de carne, porventura, como Shakyamuni, manifestam seu corpo em variadas formas segundo a natureza de seus interlocutores? Possuem as Trinta e Duas Marcas e os Oitenta Sinais(7)? Pregam a Doutrina para o benefício de todos os seres? Só quem consegue tudo isso pode dizer que alcançou a Iluminação nesta própria vida.

O Mestre disse em um de seus hinos(8),

Quando fé, inquebrantável como o diamante,
Se estabelece no coração do crente,
A Luz da Compaixão de Amida o envolve,
Libertando-o dos nascimentos e das mortes.

Isso significa que, uma vez que a fé se firme no coração do homem, este já está definitivamente liberto e não vagueará mais pelos Seis Planos. Assim, ele se liberta para sempre dos nascimentos e das mortes. Como podem confundir isso com a Iluminação em si? É lamentável que façam tal confusão. A Verdadeira Doutrina da Terra Pura ensina que devemos crer no Voto Original nesta vida para alcançar a Iluminação na Terra Pura, conforme foi dito pelo Falecido Mestre.

Notas

  1. Escola introduzida no Japão por Kukai ou Kobo Daishi (774-835), que representa a transposição para o Japão do Budismo Esotérico Indiano.
  2. Método preconizado pela Escola Shingon para se atingir a Realização Búdica, no Aqui e no Agora. Consiste na realização do Segredo da Ação (realização de mudras ou gestos simbólicos), do Segredo da Palavra (recitação de mantras ou palavras simbólicas) e na realização do Segredo do Pensamento (Contemplação de formas simbólicas).
  3. As Seis Raízes do Conhecimento são os cinco sentidos mais a mente.
  4. O autor se refere à Escola Tendai, fundada na China por Chih-Yi (538-559) e introduzida no Japão por Saicho ou Dengyô Daishi (767-822). Baseia-se a mesma no Saddharma Pundarika Sutra (Lótus da Boa Lei), que ensina que o homem pode alcançar a Realização Búdica nesta mesma vida, descrevendo-a como a purificação das Seis Raízes do Conhecimento.
  5. Exercício que, segundo a Escola Tendai, leva o homem ao estado de purificação das Seis Raízes do Conhecimento. Consiste em não errar em pensamentos, palavras e ações, em esforçar-se na prática da Compaixão, em instruir os outros seres e em estabelecer diretrizes elevadas para a vida.
  6. Na época de Shinran as crenças e práticas amidistas estavam muito difundidas entre os adeptos das escolas Tendai e Shingon, as duas principais correntes do Budismo Japonês do período.
  7. Segundo a tradição contida nos textos budistas, Shakyamuni, o fundador do Budismo, se distinguia pela faculdade de assumir diferentes aparências, conforme a natureza de seus interlocutores, e pelo fato de seu corpo possuir trinta e duas marcas e oitenta sinais peculiares que o diferenciavam dos demais seres humanos. Trata-se, evidentemente, de uma maneira simbólica de expressar a transcendência de Buda, o Homem Perfeito por excelência.
  8. Shinran compôs uma série de hinos em que expõe em forma poética vários aspectos de sua doutrina. O texto citado neste capítulo pertence ao Kôso Wasan (Hino dos Patriarcas).

Capítulo XVI

Há os que dizem que os que seguem o Caminho da Crença na Terra Pura deverão se arrepender e se converter cada vez, por acaso, se se deixarem levar pela cólera, cometerem alguma ação má ou discutirem com seus companheiros.

Porventura essa tese não implica em evitar o mal e praticar o bem?

A experiência da conversão deve ocorrer apenas uma vez naqueles que seguem com pureza e fidelidade o Caminho do Nembutsu.

Conversão significa o seguinte: Uma pessoa que até agora não conhecia o Caminho da Fé no Outro Poder do Voto Original recebe a Sabedoria de Amida e chega à conclusão de que, em sua atual condição de espírito, não pode esperar conseguir o ir-nascer com seu próprio esforço. Ocorre então uma reviravolta em seu espírito e ela passa a confiar plenamente no Voto Original.

Se, para alcançar o ir-nascer a pessoa precisar manifestar arrependimento todas as manhãs e todas as tardes em relação a todos os seus atos, poderá ela morrer sem ter tempo de se arrepender e de se converter, pois a vida humana pode se extinguir de repente, durante uma inspiração ou uma expiração, não lhe dando tempo para, com serenidade e resignação, entregar-se à reflexão. Assim, o Voto que jamais abandona aquele que nele confia seria perfeitamente vão.

Tal opinião, em suma, parte daqueles que, embora digam que confiam no Poder Salvador do Voto, no fundo de seus corações ainda pensam que, ainda que o poder misterioso do Voto permita a salvação dos maus, afinal de contas a primazia pertença aos bons. Tais pessoas duvidam do Poder do Voto, sua confiança no Outro Poder é insuficiente. Elas deveriam se lamentar, pois só conseguirão renascer nas regiões limítrofes da Terra Pura(1).

Quando a fé se estabelece com firmeza, a iniciativa do ir-nascer passa inteiramente para o coração de Amida, não dependendo mais do crente. Ainda que tenhamos um coração mau e impuro, se confiarmos inteiramente no Poder do Voto ele espontaneamente(2) adquirirá mansidão e paciência. Em qualquer circunstância, no que se referir ao ir-nascer, o crente deverá evitar pensamentos de confiança em sua própria inteligência e refletir constantemente quão profunda é a graça por ele recebida de Amida. Assim, praticará ele o verdadeiro Nembutsu, o Nembutsu que brota natural e espontaneamente, É um Nembutsu natural e espontâneo porque não depende da vontade do praticante. Por isso é ele chamado o Nembutsu do Outro Poder(3). Há pessoas que tomam ares de sábio, como se tivessem alguma realização especial, mas seu entendimento é superficial e vão.

Notas

  1. Ver a nota 3 do Capítulo XI.
  2. O conceito de espontaneidade e naturalidade (Jinen Hôni), que ocupa um lugar de extraordinária importância no pensamento de Shinran, aparece também no pensamento de outros notáveis pensadores do Budismo do Japão, como Kukai do Budismo Esotérico Shingon e Dôgen (1200-1253), do Budismo Zen. Há estudiosos que, como Mikisaburo Mori, afirmam que tal conceito penetrou no Budismo sino-japonês por influência da filosofia do “não-agir” (Wu-Wei) dos pensadores taoístas da China Lao-tze e Chuang-Tze.
  3. Em suma, o Verdadeiro Nembutsu é uma manifestação do Verdadeiro Eu, que ocorre quando o ego se dissolve.

Capítulo XVII

Há pessoas que afirmam que os que vão nascer nas regiões limítrofes da Terra Pura(1) acabam caindo nos infernos.

Onde estão os textos que fundamentam tal opinião? Essa lamentável afirmação deve ter partido de gente pedante, que toma ares de sábio. Com que atitude essa gente lerá os Sutras e tratados que expõem a Sagrada Doutrina?

O que nos foi ensinado é que os praticantes que têm fé insuficiente e duvidam do Voto Original irão nascer nas regiões limítrofes e, depois de aí expiarem a culpa da dúvida, alcançarão a Legítima Iluminação na Terra Pura(2).

O ir-nascer nas regiões limítrofes foi pregado porque é bastante pequeno o número dos genuínos crentes. Assim afirmar que ele é vão implica em afirmar que as palavras do Tathagata são mentirosas.

Notas

  1. Ver a nota 3 do Capítulo XI.
  2. Essa doutrina das regiões limítrofes da Terra Pura pode ser comparada com a do Purgatório da Teologia Católica.

Capítulo XVIII

Há pessoas que afirmam que o crente se tornará um Buda grande ou pequeno, conforme a quantidade de donativos que ofertar à causa do Budismo.

Essa opinião é inteiramente absurda, não têm o menor fundamento.

Em primeiro lugar, ninguém pode ter a pretensão de avaliar o tamanho de um Buda. Os Sutras descrevem o tamanho do Corpo do Senhor da Doutrina da Terra Pura do Perfeito Repouso(1), mas trata-se do Corpo de Retribuição(2) engendrado para facilitar a compreensão dos homens. O Buda, que atingiu a Natureza do Real(3) não é nem longo, nem curto, nem quadrado, nem redondo, nem azul, nem amarelo, nem vermelho, nem branco, nem preto(4). Como então poderemos considerá-lo grande ou pequeno? Se a recitação do Nembutsu permite ao praticante contemplar o Corpo de Manifestação de Buda, porventura poderia alguém dizer que um pequeno Nembutsu permite um grande Buda?(5).

Além disso, tal opinião corresponde à prática da doação6, recomendada pelos seguidores da doutrina da Salvação através do próprio esforço. Acumular riquezas diante de Buda ou ofertá-las aos Mestres de nada servirá, se o crente não tiver a verdadeira fé. Ainda que a pessoa não ofereça à causa do Budismo nem mesmo uma folha de papel ou meia moeda, se ela se entregar de todo o coração ao Outro Poder e tiver uma fé profunda, sua atitude estará em conformidade com a essência do Voto.

Emitir semelhante opinião significa aproveitar-se do Budismo para procurar a satisfação de ambições profanas, o que implicará em infundir temor nos fiéis.

Notas

  1. Amida.
  2. Segundo o Budismo, o Buda, isto é, o homem desperto, iluminado, possui três corpos:
    A) Corpo da Lei — Dharmakaya — Corresponde à própria essência do Real, sem forma, incondicionado, sem início e sem fim. É o Absoluto por Excelência, o Eu Supremo de que o homem toma consciência quando supera as barreiras construídas pelo ego.
    B) Corpo de Retribuição — Sambhogakaya — Corresponde à aparência tomada pelo homem após atingir a plena consciência de seu Eu Supremo, ou seja, depois de integrar-se com o Dharmakaya. As descrições que mostram Buda como um ser de aparência sobre-humana, emitindo fulgurante luz dourada e possuindo uma série de poderes supra-normais correspondem a descrições simbólicas do Sambhogakaya.As representações de Amida que o mostram com um glorioso corpo de luz de tamanho descomunal, sentado num maravilhoso trono no centro de sua Terra Pura, um paraíso de delícias e riquezas indescritíveis, são também representações simbólicas do Sambhogakaya, destinadas a permitir ao homem ter uma idéia do que seja a Absoluta Sabedoria e a Absoluta Compaixão do Eu Supremo. Tais descrições não devem ser tomadas ao pé da letra, como bem explica o presente Capítulo.
    C) Corpo de Manifestação — Nirmanakaya — O homem desperto, tomado de infinita compaixão pelos seres viventes que ainda não atingiram ao conhecimento do Real, assume vários aspectos que facilitam sua comunicação com os outros seres para transmitir-lhes a mensagem libertadora. Tais aspectos formam o Corpo de Manifestação. Geralmente o Buda Histórico, Shakyamuni, é representado como Nirmanakaya. No Amidismo também Shakyamuni é visto como o Nirmanakaya manifestado entre os homens para transmitir-lhes a mensagem da salvação através do Voto Original de Amida.
  3. O Dharmakaya.
  4. Essa descrição do Dharmakaya é muito parecida com a que se encontra no primeiro Capítulo do Maha Vairocana Sutra (Sutra do Buda Maha Vairocana), um dos principais textos do Budismo Esotérico, que no Japão é venerado como um dos livros sagrados da Escola Esotérica Shingon. O texto do Maha Vairocana Sutra diz o seguinte: “Ó Senhor dos Mistérios! A Perfeita Iluminação do Tathagata não é nem azul, nem amarela, nem vermelha, nem branca, nem cor de safira, nem longa, nem curta, nem redonda, nem quadrada, nem luminosa, nem escura, nem masculina, nem feminina e nem neutra”. Não teria o autor do Tannishô lido o Maha Vairocana Sutra ou recebido por outras vias alguma influência do Budismo Esotérico Shingon?
  5. Tanto no Japão como na China existia a crença de que a recitação do Nembutsu permitia aos fiéis contemplar o próprio Buda.
  6. Uma das seis virtudes ou Paramitas cuja prática é exigida pelo Budismo Ortodoxo, que ensina a realização do homem através de seu próprio esforço:
    1) Doação (de bens materiais e espirituais);
    2) Viver segundo os princípios da ética;
    3) Paciência;
    4) Perseverança;
    5) Meditação;
    6) Sabedoria.

Conclusão Geral

As opiniões descritas acima devem ter nascido de crenças heterodoxas.

Certa ocasião, o Falecido Mestre relembrou o seguinte fato:

Quando o Mestre Honen ainda vivia, junto a ele se reuniam numerosos discípulos, entre os quais muitos dotados de fé idêntica à do Mestre, o que causou um dia uma discussão entre Shinran e seus companheiros. Essa discussão nasceu por ter ele proclamado o seguinte:

— Eu, Zenshin(1), possuo uma fé semelhante a do Mestre.

Tal afirmação provocou a indignação dos zelosos discípulos de Honen, como Seikambô e Nembutsubô:

— Como ousas, Zenshin, comparar tua fé à do venerável Mestre?

— O Mestre possui profunda sabedoria e elevada cultura. Seria realmente uma grande ousadia se eu tentasse me equiparar a ele nesses aspectos. Agora, quanto à fé, não há diferença alguma, ela é idêntica.

Embora ele assim respondesse, seus interlocutores ainda duvidavam:

— Isso não é possível.

Por fim, ficou decidido que o problema fosse apresentado a Honen para que o mesmo decidisse quem tinha razão.

Honen disse:

— Minha fé me foi dada por Amida. A fé de Zenshin também lhe foi dada por Amida. Assim, ambas são a mesma fé, não há a mínima diferença entre elas. Aqueles que acham que ela é diferente não irão-nascer na mesma Terra Pura em que eu, Genku(2) irei nascer.

Relembrando esse fato, indago se entre os que hoje professam a crença no verdadeiro Nembutsu não existirão elementos cuja fé seja diferente da de Shinran.

Tudo que escrevi assim não passa de palavreado de um velho, mas animei-me a escrever tudo o que me vai na mente.

Minha vida é frágil como a gota de orvalho que jaz sobre uma folha seca, mas enquanto me restar um alento de vida poderei responder às dúvidas dos companheiros de fé e explicar-lhes o verdadeiro sentido das palavras do Mestre. Escrevi essas palavras por achar lamentável que, quando fechar os olhos para sempre, eles sejam confundidos por doutrinas errôneas.

Se as pessoas que lerem minhas palavras se sentirem confundidas por elas, que leiam com cuidado os Textos Sagrados que o Falecido Mestre utilizava por estarem de acordo com seu pensamento. Nos Textos Sagrados a Doutrina Verdadeira está misturada com ensinamentos introdutórios e superficiais destinados a preparar o espírito do praticante para o entendimento do mesmo. É necessário rejeitar o superficial e compreender o profundo, deixar de lado o supérfluo e apegar-se ao essencial. Assim estaremos agindo conforme o pensamento do Falecido Mestre.

Adicionei a estas Notas alguns textos importantes do Mestre que servirão para facilitar a compreensão das mesmas(3).

O Mestre sempre dizia:

— Refletindo sobre o Voto em que Amida meditou durante cinco kalpas, verifico que realmente ele se destina apenas à salvação de minha pessoa(4). Ah! Quão sublime é o Voto Original, nascido do desejo de salvar minha pessoa aprisionada nas teias do Karma!

Lembro-me também das sábias palavras do Venerável Cheng Tao(5), que transmitem exatamente a mesma idéia:

— Deves saber que és na realidade um homem vulgar, que vagueia desde épocas imemoriais pelos meandros dos nascimentos e das mortes, carregado de mau Karma, e sem nenhuma chance de encontrar libertação.

Em suma, o Mestre tomava sua própria venerável pessoa como exemplo para nos fazer sentir como vivemos perdidos, ignorando a gravidade do mal que há em nós e a profundidade da sublime graça que o Tathagata nos oferece.

Além disso, em nossa vida nós sempre vivemos dizendo o que é bom e o que é mal, não levando em conta a graça do Tathagata. O Mestre dizia:

— Eu nada sei a respeito do bem e do mal. Poderia saber, se por acaso conhecesse o que é bom e o que é mau para o Tathagata. Entretanto, em minha natureza de homem vulgar carregado de paixões e neste mundo impermanente semelhante a uma casa incendiada, tudo é falso e mentiroso, nada é real. Só o Nembutsu é autêntico.

Realmente eu e as demais pessoas só dizemos mentiras e, o que é mais lamentável, surgem disputas referentes à recitação do Nembutsu e à fé, nas quais as pessoas, ao expor suas teses às pessoas e visando calar-lhes a boca para encerrar a discussão, proclamam palavras completamente diferentes das do Mestre. Isso é realmente vergonhoso e lamentável. É necessário que façamos a mais séria reflexão possível sobre esse ponto.

As palavras que eu disse acima não são minhas. Entretanto, não estou familiarizado com os meandros dos Sutras e dos Tratados nem minha compreensão atinge a Doutrina em toda a sua profundidade. É provável que os leitores riam de mim por ter ousado escrever, mas eu o fiz zelando para que minhas palavras não sejam um centésimo sequer diferentes das pronunciadas pelo falecido Shinran.

É bastante triste que existam pessoas, que embora beneficiadas com a graça do encontro com o Nembutsu, estejam destinadas a ir-nascer nas regiões limítrofes da Terra Pura. É com lágrimas nos olhos que mergulho o pincel na tinta de escrever, almejando que não surjam doutrinas heréticas entre os companheiros irmanados na mesma crença. Dou a este texto o nome de Tratado de Lamentação das Heresias. Que ele não seja exposto a olhos profanos(6).

Notas

  1. Nome que Shinran usava quando era discípulo de Honen.
  2. Nome usado pelo Mestre Honen.
  3. Não se sabe ao certo se essas palavras se referem aos textos de Shinran que constam dos dez primeiros Capítulos da obra ou a alguma coletânea de textos que não chegou até nós.
  4. Nessas palavras é patente o sentido existencial e subjetivo da religião de Shinran.
  5. Ver a nota 5 do Capítulo II.
  6. O Tannishô foi considerado um texto secreto até o fim do século XIX, quando começou a ser divulgado entre o grande público. Até essa época só tinham acesso a ele as pessoas que os instrutores da Escola Verdadeira da Terra Pura achavam que já estavam suficientemente amadurecidos na fé e no estudo da Doutrina, para não deturparem o sentido desse texto profundo e paradoxal.