Introdução

Através de minhas pouco profundas reflexões pessoais, tenho comparado os dias de hoje com o passado e lamentado profundamente o fato de que as crenças de muitos dos companheiros diferem da genuína fé transmitida oralmente pelo mestre(1). Isso certamente provocará dúvidas e perplexidade naqueles que doravante se propõe a se instruírem na Doutrina.

Como poderá alguém se instruir na Doutrina da Prática Fácil(2) se não encontrar um autêntico instrutor? Não podemos falsear a essência da Doutrina do Outro Poder(3) através de interpretações pessoais e arbitrárias.

Assim, resolvi registrar algumas palavras do finado Mestre Shinran que calaram profundamente em meus ouvidos. Fiz esse trabalho com o único objetivo de extirpar as dúvidas daqueles que procuram praticar o mesmo caminho.

Notas

  1. Yui-en se refere às instruções do Patriarca Shinran, por ele transmitidas oralmente a seus discípulos mais chegados. Como a maior parte das doutrinas orientais, a Verdadeira Escola da Terra Pura dá mais importância à instrução oral e direta, de mestre para discípulo, do que à divulgação através de textos escritos.
  2. Uma das denominações da Doutrina de Nembutsu, considerada em contraste com as demais escolas budistas, que demandam de seus seguidores a observância de preceitos éticos e ritualísticos, práticas ascéticas, etc. A doutrina de Nembutsu demanda apenas uma atitude de total despojamento e entrega incondicional em relação à Grande Compaixão Salvadora de Buda, expressa através da recitação do Nembutsu: Namu Amida Butsu.
  3. Outra denominação da Doutrina de Nembutsu, assim chamado por que nela o budista não se realiza através do seu esforço pessoal, como nas demais escolas budistas, mas através do total despojamento frente ao Poder do Absoluto, representado simbolicamente pela figura de Amida, o Buda da Luz e da Vida Infinita.

Capítulo I

Quando, firmes na certeza de que, salvos pelo Voto de Amida(1) que escapa ao alcance de nosso pensamento(2) alcançaremos o ir-nascer na Terra Pura(3) brota em nosso coração o desejo de recitar o Nembutsu(4), imediatamente alcançamos a graça de estarmos definitivamente seguros, sem a possibilidade de sermos rejeitados. O Voto Original(5) de Amida não faz distinções entre velhos e jovens, bons e maus, reclama apenas um coração sincero, puro e inabalável. Isso porque é u voto que visa salvar os seres carregados de pesadas culpas e profundo mal, que têm paixões e desejos fortes e resistentes. Assim, para se confiar no Voto Original não são necessárias outras práticas virtuosas, por não haver prática virtuosa superior ao Nembutsu, nem se deve temer o mal por não existir mal que possa obstruir a ação do Voto Original de Amida.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. Personificação do Absoluto, da Vida Cósmica, da Fonte Primordial de Existência de onde todas as consciências brotam e para onde todas elas voltam. O verdadeiro Eu ou o Eu Supremo, em oposição ao ego, prisioneiro de ilusões e interesses egoístas e mesquinhos. Amida vem do sânscrito Amita, que significa imensurável, ilimitado absoluto. Esse termo está presente nos vocábulos Amitayus (Vida Ilimitada) e Amitabha (Luz Ilimitada), sendo que o primeiro expressa a Compaixão Absoluta e Eterna e o segundo, a Sabedoria Ilimitada. Amida é pois o Buda (Desperto, Perfeito) que tem Compaixão e Sabedoria sem limites. O Voto de Amida é o juramento feito pelo asceta Dharmakara (encarnação anterior de Amida) de jamais alcançar o grau Supremo de Perfeição (Grau de Buda) enquanto todos os seres sofredores e ignorantes que nele confiassem integralmente não fossem salvas. Trata-se de uma narrativa simbólica que expressa a Compaixão do Absoluto dirigida para nossas consciências imperfeitas e limitadas, no sentido de fazê-las despertas para a Suprema Realização.
  2. O Voto de Amida é um evento do mundo do Absoluto, sendo, portanto, inatingível pelo pensamento imperfeito e limitado do ego. Só através de uma atitude de total confiança e despojamento poderá o mesmo ser sentido atuante em nossa existência.
  3. A Realização Suprema, expressa simbolicamente como uma morte (do ego) seguida por um renascimento (do Eu Supremo) na Terra Pura ou no Mundo do Absoluto. O Nirvana, o objetivo supremo da existência, o Despertar para o Real.
  4. Tradução japonesa da expressão sânscrita Buddhasmriti (pensar ou manter a mente fixa na imagem de Buda). Exprime a recitação da frase Namu Amida Butsu, que expressa o ato de entrega ou refúgio incondicional do praticante em Amida ou no Absoluto. É a resposta do homem ao chamado do Absoluto que apela para que ele desperte para o Real. Através dessa resposta, o Absoluto e o contingente se fundem num só.
  5. O voto de salvar todos os seres, Original ou Primordial por ser a essência, a raiz de todos os votos emanados da Compaixão Absoluta.

Capítulo II

Cada um de vós transpôs a fronteira de mais de dez províncias, sem temer perder a própria vida, para vir à minha presença indagar a respeito do Caminho que leva ao ir-nascer na Terra da Suprema Alegria(1). Entretanto, eu não conheço outros caminhos para o ir-nascer além do Nembutsu, nem sei nada a respeito de textos sobre isto. Se estiverdes empenhados em ouvir de mim algo a esse respeito, estais incorrendo em grave erro. Se for esse o vosso problema, nos templos de Nara e no Monte Hiei(2) há muitos sábios ilustres e vós podereis procura-los e ouvir deles a respeito do ir-nascer. Quanto a mim, Shinran, nada mais faço a não ser crer nas palavras do Bom Mestre(3), que ensinou que devemos apenas recitar o Nembutsu para sermos salvos por Amida. Eu absolutamente não sei se o Nembutsu é realmente a semente do ir-nascer na Terra Pura ou se é uma prática que leva à queda nos infernos.

Entretanto, ainda que eu tenha sido enganado pelo Venerável Honen e venha a cair nos infernos por causa da recitação do Nembutsu, eu nada terei de que me arrepender. Explicarei por que. Se eu fosse capaz de me realizar como Buda através da aplicação a outras práticas e acabasse caindo nos infernos por recitar o Nembutsu, poderia me arrepender por ter me deixado enganar. Entretanto, sou incapaz de realizar qualquer prática, já estou predestinado aos infernos desde o início. Se o Voto Original de Amida for verdadeiro, os ensinamentos a respeito do mesmo pregados por Shakyamuni(4) não serão palavras vãs.

Se os ensinamentos de Buda forem verdadeiros, as explanações de Cheng-Tao(5) não serão palavras vãs. Se as interpretações de Cheng-Tao forem verdadeiras, as palavras de Honen não serão vazias. Se as palavras de Honen forem verdadeiras, os pontos expostos por Shinran também não serão sem fundamento. Em suma, tal é a crença deste homem ignorante. Agora, se aceitardes o Nembutsu como vossa crença ou rejeitardes, isto é problema de cada um de vós.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. Shinran se dirige neste Capítulo a um grupo de discípulos das províncias do Japão Ocidental que,com a mente perturbada pela difusão de heresias, procurou Shinran, que residia em Kyoto, para obter do mesmo esclarecimentos sobre suas dúvidas.
  2. Centros religiosos onde floresciam os estudos budistas, do ponto de vista das doutrinas que pregavam a realização do homem por seu próprio esforço, às quais se opõe a Doutrina do Outro Poder.
  3. Honen (1133-1212), mestre de Shinran, divulgador da Doutrina de Salvação pelo Nembutsu e fundador da Escola de Terra Pura.
  4. Patriarca do Amidismo Chinês (613-681), precursor de Honen e Shinran.

Capítulo III

“Os próprios bons conseguem ir-nascer na Terra Pura; com muito maior razão, pois os maus(1) o conseguirão”. Entretanto, as pessoas costumam dizer que se os maus conseguem ir-nascer na Terra Pura, com muito maior razão os bons o conseguirão. Esta última afirmativa parece à primeira vista razoável, mas ela vai contra o Voto Original de Amida.

Isso porque, aqueles que acreditam na salvação conseguida através de práticas virtuosas feitas com seu próprio esforço não confiam incondicionalmente no Outro Poder e assim não se harmonizam com o Voto Original de Amida.

Entretanto, se eles abandonarem sua confiança no esforço próprio para confiarem no Outro Poder, conseguirão o ir-nascer na Terra da Recompensa Real(2).

A verdadeira intenção de Amida ao enunciar seu Voto compadecido de nós, seres carregados de paixões mundanas e incapazes de se libertarem dos nascimentos e das mortes(3) através de quaisquer práticas, é oferecer a Realização Búdica aos maus. Assim, o mau que confiar no Outro Poder é o legítimo merecedor do ir-nascer na Terra Pura.

Por isso o Venerável Mestre(4) disse: “Se os bons conseguem o ir-nascer, com muito maior razão os maus o conseguirão”.

Notas

  1. É preciso tomar cuidado para não tomar a palavra “mau” empregada por Shinran, em seu sentido comumente empregado, ou seja, do ponto de vista moral. O “mau” para Shinran, é aquele que, através de uma severa autocrítica, se reconhece como incapaz de atingir a perfeição através de seu próprio esforço, dadas as suas inúmeras imperfeições e limitações. Em outras palavras, o “mau” é aquele que reconhece a contingência do Ego e portanto toma consciência de impossibilidade de se atingir o Eu Real e Absoluto a partir de esforços efetuados pelo Ego.
  2. O Verdadeiro Nirvana, o Despertar para o Real. Shinran estabelece uma distinção entre a “Terra da Recompensa Real” ou a autêntica realização e a “Terra Transitória”, ou seja, um estudo preliminar e imperfeito de realização atingido por aqueles que não conseguem renunciar totalmente à idéia de realização pelo esforço próprio. A “Terra Transitória” é uma espécie de prelúdio à verdadeira realização que surge quando o homem consegue desvencilhar-se totalmente do Ego.
  3. Os autores budistas japoneses e chineses empregam freqüentemente a expressão “nascimentos e mortes” como tradução do termo sânscrito samsara. Samsara, no pensamento budista, é a esfera do limitado, do contingente, do ilusório em oposição a Nirvana, o mundo do Infinito, do Absoluto e do Real.
  4. A moderna crítica histórica e filológica dos textos amidistas demonstra que o enunciado da doutrina da “salvação dos maus” não é de iniciativa de Shinran, como se pensava inicialmente, remontando a seu Mestre Honen. É, pois a este último que o texto se refere como sendo o autor das expressões grifadas. Também é necessário levar em conta o contexto histórico em que essa doutrina foi elaborada. O Budismo anterior a Shinran e a Honen pregava a salvação dos “bons”, isto é, daqueles capazes de se entregar a austeridades, de custear a edificação de templos e santuários a fornecer polpudas contribuições aos monges. Em termos de classes sociais, isso significa que somente a nobreza e o alto clero tinham acesso à salvação. Já a pregação amidista visava principalmente o povo(lavradores, comerciantes, etc.) oprimido pela nobreza e incapaz de realizar as obras reclamadas pela religião da classe dominante. Nesse sentido, a pregação amidista representou uma volta à tese da absoluta igualdade humana, pregada por Shakyamuni, o fundador do Budismo, que critica radicalmente a sociedade de castas da Índia de seu tempo. Para Shinran, o povo, oprimido e explorado, excluído do paraíso pregado pela religião dos nobres, é o legítimo merecedor da Salvação através do Voto Original de Amida. Aqui nós temos um dos pontos mais altos e sublimes da religião de Shinran, comparável à mensagem do Cristianismo Primitivo, dirigido de preferência aos escravos, aos pobres e demais elementos oprimidos pela dominação romana.

Capítulo IV

Há diferenças entre a Compaixão(1) segundo o Caminho de Realização através do Esforço Pessoal e segundo o Caminho da Terra Pura. A Compaixão segundo o Caminho de Realização através do Esforço Pessoal consiste em se compadecer dos seres viventes(2), dispensar-lhes afeto e educá-los. Entretanto é extremamente raro alguém conseguir dispensar a outrem a salvação total e completa, conforme seu intento.

A Compaixão segundo o Caminho da Terra Pura consiste em recitar o Nembutsu para torna-se imediatamente Buda, e então, com a Grande Compaixão, beneficiar os seres à vontade.

Nesta vida de ilusões e erros, por mais que nos compadeçamos dos seres, difícil será salvá-los conforme nosso desejo, pois nossa Compaixão não é total e perfeita. Assim, só recitando o Nembutsu teremos a Compaixão total e perfeita.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. Traduz-se comumente por compaixão a expressão formada pelas palavras sânscritas Maitri e Karuna. Maitri é um sentimento de afeição e simpatia que se caracteriza pelo esforço em proporcionar prazer ou alegria a outrem e Karuna o sentimento de comiseração ou pena que procura mitigar o sofrimento de outrem. Compaixão seria então um sentimento de afeição e solidariedade dirigido a todos os seres, uma espécie de Amor Universal. Entretanto, nas traduções dos textos budistas procura-se evitar o uso da palavra amor, porque o termo sânscrito Trsna, comumente traduzido por amor, possui a conotação negativa de um apego egoísta ao objeto amado e de um desejo incansável de satisfação pessoal.
  2. A Compaixão Búdica, ao contrário do Amor das religiões ocidentais, que se dirige apenas aos seres humanos, engloba também os animais, os vegetais e mesmo os seres inanimados e os objetos manufaturados pelo homem.

Capítulo V

Shinran nunca recitou o Nembutsu em memória de seu pai e de sua mãe(1) nem uma vez sequer, pelo seguinte motivo:

Todos os seres viventes são pais e irmãos uns dos outros, na inesgotável sucessão de gerações e nascimentos(2). Todos eles(3), na próxima existência, serão salvos, realizados como Budas.

Se o Nembutsu fosse recitado por nosso próprio esforço, seria possível efetuar a transferência dos méritos acumulados com sua recitação, em prol da salvação dos pais. Entretanto, cumpre abandonar a idéia de salvação através do esforço próprio, e alcançar logo a Realização na Terra Pura. Então, ainda que os seres estejam mergulhados no mais atroz dos sofrimentos Kármicos(4) num dos Seis Planos(5) ou num dos Quatro Tipos de Existência(6), com o maravilhoso poder salvador dos Budas, poderemos salvá-los, começando pelos mais chegados a nós.

Notas

  1. No Japão é costume realizarem-se rituais em que os méritos alcançados através da leitura de textos budistas são transferidos em prol dos falecidos da família. A ética popular japonesa, de origem confucionista, exige dos filhos esses tipos de rituais em memória dos pais falecidos, como uma forma de piedade filial. (A piedade filial é uma das principais virtudes da ética de Confúcio).
  2. Ou seja, todos os seres participam da Vida Uma.
  3. Subentenda-se: os que recitarem o Nembutsu.
  4. Sofrimentos ocasionados pelas faltas cometidas no passado.
  5. Os Seis Planos de existência, segundo a cosmologia búdica são:
    I – Plano infernal — mundo dos seres mergulhados num sofrimento atroz.
    II – Plano dos fantasmas famintos — mundo dos seres dominados por desejos incansáveis.
    III – Plano dos animais — mundo dos seres ignorantes, dominados pelos instintos.
    IV – Plano dos Titãs — mundo dos seres dominados pela agressividade.
    V – Plano dos seres humanos — mundo dos seres em ignorância e discernimento, prazer e dor se misturam em idênticas proporções.
    VI – Plano dos seres celestiais — mundo dos seres mergulhados no gozo dos prazeres.
  6. Segundo o antigo pensamento indiano, os seres se dividem em quatro categorias:
    I – Seres que nascem do útero materno: homens, mamíferos.
    II – Seres que nascem de ovos: aves, répteis, etc.
    III – Seres reputados como nascidos da umidade: insetos, vermes, etc.
    IV – Seres reputados de geração espontânea: fantasmas infernais, seres celestiais, etc.

Capítulo VI

É inconcebível que pessoas que vivem pelo Nembutsu se entreguem a disputas do tipo “este é meu discípulo, mas aquele é discípulo de outros”.

Eu, Shinran, não tenho nenhum discípulo, pelo seguinte motivo: Se eu, na minha iniciativa, fizesse os outros recitarem o Nembutsu, eu poderia dizer que eles são meus discípulos; entretanto, os homens recitam o Nembutsu por obra do poder de Amida; é um absurdo, pois que eu os considere meus discípulos.

As pessoas se aproximam umas das outras quando surgem condições favoráveis para isso e separam quando surgem condições tendentes à separação. Não devemos pois dizer que alguém ficará privado do ir-nascer na Terra Pura por ter deixado seu mestre e estar praticando o Nembutsu com outro instrutor. Em hipótese alguma deve alguém, considerando como obra sua um coração pleno de pureza e sinceridade conferido por Amida, intentar tomá-lo de volta. Quem vive conforme a lei da Espontaneidade do Real(1) deve tomar consciência dos grandes benefícios recebidos do Buda e do Mestre(2).

Notas

  1. O Voto Original de Amida, o Real manifestando-se em sua natural espontaneidade, sem interferência dos artifícios do Ego.
  2. O instrutor que explica a salvação através do Voto Original de Amida; Honen, no caso de Shinran.

Capítulo VII

O Nembutsu é um caminho sem obstáculos(1), porque o praticante que tem o coração puro e sincero é reverenciado pelos deuses do céu e da terra(2) e não pode ser prejudicado pelos demônios e pelos seguidores de crenças hostis ao Budismo. É um caminho sem obstáculos, pois nele as piores culpas deixam de produzir conseqüências penosas e nenhuma ação virtuosa pode a ele se equiparar.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. O caminho Absoluto, da Perfeita Liberdade, que não pode ser obstruído por nenhum impedimento.
  2. No Budismo os deuses são considerados entidades inferiores aos Budas, isto é, aos homens que despertaram para o Conhecimento do Real. Shinran, fiel a uma tendência que remonta a Shakyamuni, o fundador do Budismo, quer mostrar aqui que o praticante do Nembutsu não precisa orar aos deuses, pois está acima dos mesmos. A maior parte das escolas budistas admite o sincretismo com divindades de outras religiões, mas o movimento inaugurado por Shinran sempre procurou manter o Budismo puro de qualquer influência de outros credos. Shinran criticava principalmente as superstições e crendices ligadas à magia, às práticas adivinhatórias, à distinção entre dias favoráveis e nefastos, e as preces com objetivos egoístas e interesseiros.

Capítulo VIII

Para o praticante, o Nembutsu não é nem uma prática nem uma ação virtuosa. Não é uma prática ascética porque não é praticado com base na minha vontade(1). Não é uma ação virtuosa porque a ação virtuosa não depende da minha vontade.

Já que o Nembutsu se baseia totalmente no Outro Poder e na renúncia ao Caminho do Esforço Próprio, não é ele uma prática ascética nem uma ação virtuosa.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. Traduzimos por “vontade” a expressão japonesa hakarai, que possui também o sentido de uma construção intencional ou artificial. Hakarai é tudo o que é engendrado pelo ego, sendo, portanto limitado, relativo e artificial. O verdadeiro Nembutsu não é uma prática artificial ou intencional engendrada pelo ego mas sim, uma manifestação espontânea do Eu Maior que surge, quando o homem consegue se desembaraçar do ego e de suas construções. O Nembutsu pertence, pois ao domínio do Absoluto, diante do qual todas as atividades geradas pelo ego são absolutamente nada.

Capítulo IX

— Eu recito o Nembutsu, mas não sinto vontade de pular e dançar de alegria, nem o desejo de alcançar a Terra Pura o mais rapidamente possível. Como resolver esse problema?

Tendo eu feito essa pergunta, o Mestre respondeu:

— Eu, Shinran, também tinha essa dúvida: vejo agora que também tu, Yui-en, experimentas o mesmo estado de espírito. Meditando sobre esse ponto, cheguei à conclusão de que o fato de não me alegrar quando deveria sentir vontade de dançar no céu e na terra de tanta alegria é indício de que o ir-nascer está absolutamente garantido. São as paixões que impedem que o coração se alegre quando ele deveria estar tomado de alegria. Entretanto, desde o início Buda(1) está ciente desse fato e nos considera como seres cuja essência consista em paixões e imperfeições. Uma vez cientes de que o Voto Compassivo do Outro Poder é dirigido a nós, que temos tal natureza, podemos, de uma vez por todas, considerá-lo infalível. É por causa das paixões que nosso coração não sente vontade de se apressar rumo à Terra Pura e que, quando alguma doença nos aflige, ficamos inquietos, temendo a morte. É por causa de efervescência das paixões que não queremos de maneira nenhuma abandonar esta terra de sofrimento onde vagueamos desde um passado imemorial e que não sentimos nenhum anseio pela Terra Pura da Suprema Tranqüilidade. Quando, não obstante o nosso apego a esta terra, os laços do condicionamento que a ela nos prende se desfizerem e irremediavelmente tiver chegado o nosso fim, aí então deveremos nos dirigir para Aquela Terra(2).

Buda se compadece de nós especialmente porque não sentimos vontade de ir rapidamente para lá. É considerando tudo isso que devemos considerar o Grande Voto da Grande Compaixão como digno de absoluta confiança e o ir-nascer como definitivamente garantido.

Se, pelo contrário, sentíssemos vontade de pular de alegria, de dançar e desejo de ir rapidamente para a Terra Pura, aí então é que deveríamos estranhar a ausência de paixões em nosso coração.

Notas

  1. O Buda Amida.
  2. A Terra Pura, o mundo do Verdadeiro Eu que se abre quando o Ego, não obstante seus desesperados esforços de se auto-afirmar, se dissolve, ao chegar o momento propício.

Capítulo X

O significado do Nembutsu está no não-significado(1), isso por ser ele inominável(2), inexpressável e impensável.

Assim disse o Mestre.

Notas

  1. A essência do Nembutsu está no fato do mesmo estar além da conceitualização e da compreensão em termos de intelecto. O mundo da compreensão intelectual pertence ao ego e o Nembutsu é a renúncia total ao ego e todas as suas construções. Toda e qualquer tentativa de explicar e rotular o Nembutsu fracassa, na medida em que parte do ego. Assim, nós, que vivemos prisioneiros do ego e de suas construções, só podemos expressar o Nembutsu que pertence ao domínio do Verdadeiro Eu, através do paradoxo, como faz Shinran.
  2. Nessa expressão está também implícita a idéia de que o Nembutsu, pertencendo ao domínio do Absoluto e do Infinito não pode ser nomeado ou definido, pois os atos de nomear e definir implicam numa limitação e o Absoluto não pode ser limitado. Shinran expressa o Absoluto através do paradoxo e da negação, como faz a maioria dos pensadores e das escolas do Oriente.