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Unidade entre Vida e Morte – Seminário para Diretores das Associações Religiosas – 2018 Rev. Bunsho Obata

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Boa tarde a todos.
Hoje, estamos reunidos aqui para o Seminário dos Diretores das Associações Budistas, que, como o nome diz, reúne membros regionais que mantêm os templos da nossa Ordem Shinshû Ôtani-ha. Justa ocasião para falar sobre a importância do significado desta manutenção. Em sequência, gostaria de abordar o tema: “Unidade entre Vida e Morte” [shôji iti-nyo].
Dentre os 25 templos da Ordem Ôtani mantidos pelos fiéis e que pertencem à Missão Sul-Americana, 15 deles possuem missionários residentes. Além desses, a nossa Missão possui 8 espaços para a prática do “Escutar o Dharma” (Escutar os Ensinamentos Búdicos) em diferentes regiões, também mantidos pelos associados destas regiões onde não há um templo sede em si.
Assim é composta a nossa Missão Sul-Americana do Budismo Shin, Ordem Ôtani.
Cada um desses locais para “Escutar o Dharma” (Monpô Dôjô) foi construído com muito empenho pelos antepassados para transmitir-nos o que de fato é importante para viver e mostrar-nos qual é a essência da nossa vida. No desejo de deixar para nós esta mensagem, construíram os templos como Locais para se Escutar o Dharma.
O Rev. Shigeshi Wada escreveu a respeito de sua rotina no templo:
“Amanhece e entardece,
e eu dentro deste pequeno templo,
apenas recito o Nembutsu.
Vivo impulsionado pelo Grande Voto!”
Aqui, ele descreve o seu coração cheio de felicidade por viver no espaço construído com o poder do Grande Voto, para que ele possa “Escutar o Dharma”.
Os templos foram construídos como locais (dôjô) nascidos através da ação do Grande Voto de Amida.
Originalmente, “Escutar o Dharma” (monpô) significa questionar “quem sou eu?” sob a ótica da Doutrina do Buda, o Dharma.
Normalmente, nós pensamos saber tudo sobre nós mesmos, mais do que ninguém. Ledo engano! Todos nós, quando cometemos algum erro, logo nos queixamos: “Ah, não pode estar acontecendo isso! Deveria ter feito assim ou assado!” E, para não assumirmos nossa responsabilidade, culpamos o outro. O culpado é sempre o outro. Eu estou sempre certo. Eu estou sempre correto. Ou seja, eu sou o bom e o outro é o mau. E, a partir disso, não preciso mais refletir.
O Mestre Shinran chamou a isso de personalidade má, sem arrependimento, ou seja, aquele que pratica a maldade sem nenhuma reflexão. O mau é sempre o outro. Eu sou sempre bom. Embora não me conhecendo verdadeiramente, eu sou assim, ignorante mesmo. Sendo ignorante e como faço de mim o centro de tudo, ninguém me ensina a verdade e encerra a vida sem saber o significado de ter nascido e nem a alegria de ter vivido como um ser humano.
Foi exatamente para nós que levamos a vida de maneira tola e miserável que nossos antepassados falecidos se tornaram Budas e nos legaram os “Espaços para Escutar o Dharma” (monpô dôjô), ou seja, os templos.
Os templos foram construídos e nos foram legados com o objetivo de que possamos recitar o Nome Sagrado do Buda, o Namu Amida Butsu. E ainda, para compreendermos através da doutrina do Nome Sagrado que escutamos dentro dos templos, quem somos e para que recebemos a vida como seres humanos. Decididamente, é dentro do templo que escutamos o chamado do Buda através da recitação do Namu Amida Butsu, percebermos que estávamos saindo do caminho correto do ser humano e reconhecermos então, que havíamos perdido de vista quem de fato nós somos. É ali que tomamos a decisão de trilhar o Caminho Budista, pois, o templo é o espaço para escutarmos o Dharma e é onde nasce o verdadeiro ser humano.
Todos vocês, diretores das Associações Budistas ou devotos presentes hoje neste seminário, envolveram-se nas construções e manutenção desses templos e aqui estão escutando os ensinamentos como portadores de uma grande missão. É, portanto, o anseio do Buda Amida que possamos confirmar a importância desta missão, mais uma vez no dia de hoje.

A seguir, gostaria de abordar o tema “Unidade entre a vida e a morte” (Vida e morte, uma só realidade) [shôji iti-nyo].
Anteriormente, falei que nós não sabemos nem sequer quem somos e, no entanto, acreditamos aleatoriamente que somos bons. Não nos avaliamos e nos julgamos corretos. Entretanto, esse pensamento é o do ser humano que vive nas trevas da ignorância.
Vamos pegar um exemplo geral para uma melhor compreensão: política mundial.
O século XX foi uma Era de guerras. O século XXI também, sem alterações, segue pelo mesmo caminho, pois os focos das guerras não cessam em vários lugares do nosso mundo. Seja onde for que esteja havendo uma guerra, o motivo não muda: ela sempre começa a partir do princípio de que “eu sou o correto”. Assim, o mensageiro da justiça luta contra outro mensageiro da justiça. Tomando isso como exemplo, podemos perceber que a origem das tragédias, está sempre no pensamento de que “eu sou o correto”.
Desde tempos imemoriais, desde a época do surgimento do ser humano na Terra, o coração compassivo do Buda Amida vem manifestando sua tristeza e compaixão para com a humanidade, que assim se comporta. Pois assim é a Grande Compaixão do Buda Amida.
A grandeza do coração búdico é inacessível à nossa condição humana. A isso, o Budismo da Terra Pura chama de Voto Original do Buda Amida. Enquanto não nos encontrarmos com esta Grande Compaixão de Amida e não escutarmos o seu chamado, nós não nos conheceremos verdadeiramente.
Então pergunto: como podemos encontrá-lo? Certamente, não o encontraremos se continuarmos a viver do jeito que vivemos, pois, não nos conhecemos. Não tomamos conhecimento do nosso passado, nem como viveremos no futuro, nem da nossa atual maneira de viver, porque ignoramos o significado de viver verdadeiramente. Assim sendo, continuaremos a avaliar tudo centrados na conveniência própria. A consequência disso é que vivemos num mundo onde nos ferimos, além de continuarmos a ferir os outros.
Vamos supor outra situação, por exemplo, a política de Trump, atual presidente dos Estados Unidos da América, que pode ser citada como expressão tipicamente egoísta do ser humano.
Vamos analisá-la. A política de Trump é “A América primeiro!”, quer dizer, a prioridade é a América. Na cabeça dele, nem por um segundo passa a ideia de uma “terra compartilhada” como na doutrina budista. Para ele importa apenas o lucro da América. Sob seus olhos, os lucros de outros países estão fora de questão.
O Budismo do Grande Veículo [Mahayana] é a doutrina da “igualdade do meu e do seu lucro. Da harmonia da vantagem para todos” [jiri-rita enman]. Dessa forma, podemos afirmar que a política de Trump é exatamente o oposto deste ensinamento búdico. Isto é muito nítido na sua declaração de construção do grande muro na fronteira com o México, ou quando declarou Jerusalém capital de Israel, possibilitando o aumento de conflitos entre árabes e judeus.
Outro problema é a Coréia do Norte. Neste caso está fora do seu contexto a segurança e a paz da Coréia do Sul e do Japão, países que poderão se transformar em mar de fogo, caso ocorra de fato uma guerra entre a América e a Coréia do Norte.
Não precisamos de maiores esclarecimentos para prever este resultado.
Somente o diálogo, não o confronto é a essência da solução de problemas.
Não há espaço para a expressão “A América primeiro!”.
Viver centrado em si é a afirmação absoluta da consciência do ego que pensa: Se for conveniente para mim, isso é bom, caso contrário é mau.
Vou contar uma historinha curiosa. Dia 3 de fevereiro existe um evento no Japão chamado “setsu-bun”. Com exceção dos templos da Terra Pura, a maioria dos templos budistas e santuários xintoístas realiza esse evento estranho que consiste em jogar grãos de soja gritando em alto e bom som: “demônios para fora… sorte para dentro!” [oni-wa soto… fuku-wa uchi]. O demônio [oni] neste caso representa coisas e pessoas inconvenientes para cada um de nós. Não quer dizer que exista um demônio em si. Eu o criei. Assim como a sorte, eu a criei. Toda realidade que me é conveniente, ou todas pessoas que são convenientes eu considero como sorte e fortuna.
Esse evento “setsu-bun” (demônios para fora… sorte para dentro) é a própria expressão da natureza humana. Ainda bem que o Budismo Shin não realiza esse tipo de evento; embora, a maioria dos templos e santuários japoneses ainda o realizem até os dias atuais, não obstante, contra os ensinamentos budistas.
O Budismo questiona frontalmente esta conduta do ser humano que age apenas de acordo com a conveniência própria. E no meio do “Setsu-bun” existe um evento no Templo Zaô situado no Monte Yoshino, província de Nara que nos faz pensar sobre a nossa conduta. Ali, o grito é: “sorte para dentro… e demônios também para dentro!” [fuku-wa uchi… oni-mo uchi]. Isso quer dizer que assumimos o que e quem não nos é conveniente como parte de nós mesmos. Isto sim é um pensamento budista.
Outro exemplo: a palavra que mais desagrada as pessoas é “morte” e ao contrário a que mais gostamos é “vida”. Basta lembrar que para viver até ferimos os outros. Entretanto, não queremos lembrar que cada um de nós um dia morrerá. Tememos, não gostamos e não queremos pensar na morte. Esta é nossa postura perante a vida.
O fonema japonês para o número quatro é “shi” [四], o mesmo da palavra morte “shi” [死], então, no Japão evita-se o fonema “shi” e até nas numerações quartos de hotéis o número quatro é evitado.
No Japão há também o hábito de jogar sal nas pessoas que participaram de um velório, antes delas entrarem em casa, para que não tragam consigo nenhum espírito impuro, como necessidade de purificação. Tudo para evitar a morte ou não querer admitir o fato de que com certeza também um dia nós morreremos.
A noção de querer evitar o que nos é inconveniente nos faz considerar como impura até a morte de alguém que amamos e respeitamos.
Como temos pensamentos egoístas!
Entretanto, o pensamento budista não rejeita a morte. Pelo contrário, considera a vida e a morte como uma unidade. Na expressão budista se diz: “Vida e morte, uma só realidade” [shôji iti-nyo]. Em outras palavras, a vida e a morte tem a igualdade. Por existir a morte, existe a vida; e por existir a vida, existe a morte. Nas palavras do Mestre Kiyozawa Manshi: “Nós não somos apenas vida, somos também a morte. Somos vida-e-morte”.
Outro exemplo, são as palavras do Mestre Shinran: “O Budismo não é um ensinamento para afastar as coisas que me são inconvenientes a fim de obter a felicidade. Pelo contrário, o Budismo nos ensina a assumir aquilo me é inconveniente para nos conhecermos a nós mesmos e esclarecer o verdadeiro significado de se viver corretamente como seres humanos”.
No capítulo II do Tratado de Lamentação das Heresias [Tannishô], o Mestre Shinran fala de sua condição humana, dizendo-se um ser leviano, cheio de paixões mundanas, incapaz de realizar qualquer prática para a sua salvação; assim sendo só o inferno seria sua morada. No texto original consta: “Entretanto, sou incapaz de realizar qualquer prática, já que estou predestinado aos infernos desde o início”. Essas são palavras de quem reconhece o inferno, mas, tem o intuito de viver. A isto, o Mestre Yasuda Rijin acrescentou: “Esse é o espírito de quem carrega a Fé Genuína, bem como o inferno, dentro de si”. Caso contrário ele seria aquela pessoa que afasta de si a realidade, a morte, o inferno, tudo enfim que lhe seja inconveniente. Tal maneira de viver seria comparável a um avião com dois motores, mas que voa no céu usando apenas um motor, o que tornaria o voo inseguro e estranho, com tendência a cair a qualquer momento.
O Dharma do Buda, que nos ensina a unidade da vida-e-morte, nos mostra que os inconvenientes e os sofrimentos da vida são condições cármicas, ou seja, surgem da própria realidade da vida humana. Aceitar e assumir tais inconveniências e sofrimentos é a correta maneira de viver.
O Budismo não ensina a mascarar a realidade da vida. Assim, o templo não é um local para pedir a realização da nossa vontade. Pelo contrário, é onde refletimos sobre a nossa conduta diária egocêntrica, na qual vivemos apenas calculando lucros e perdas. Isso significa que o nosso envolvimento com o templo não depende só da nossa razão e desejo. O Grande Voto do Buda Amida nos move e nos oferece a oportunidade de tomarmos consciência de quem realmente somos.
Convido, então, a todos aqui presentes, diretores e fiéis, unidos pela ação do Voto Original, para que tenhamos sempre em mente o propósito de juntos cuidarmos da manutenção dos nossos espaços sagrados [dôjô].
Muito obrigado.

Aprendendo Budismo

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Os dois caminhos do Budismo

É uma grande honra para mim participar desta celebração de Finados (Obon). A palavra Obon vem do termo Ullambana do sânscrito, uma língua antiga da Índia. Ela significa “invertido”, isto é, “de cabeça para baixo”. Vou falar hoje sobre como nós pensamos as coisas de maneira invertida. No Budismo existem dois caminhos. Um deles consiste em fazer severas práticas ascéticas e orar aos Budas pela realização de nossos anseios. Acredito que essa seja a idéia que vocês fazem do Budismo. Entretanto, existe um Budismo com uma postura diferente. É o Budismo que consiste em ouvir o Dharma. Ouvir o Dharma não implica em fazer rigorosos exercícios ascéticos. Nesse tipo de Budismo nós ouvimos pregações búdicas sem nos afastarmos de nossos lares e vamos despertando. Ao invés de praticarmos ascese encerrados em templos nas montanhas, aprendemos a viver recitando o Nembutsu em nossos lares. Tal é esse Budismo. O Budismo da Verdadeira Escola da Terra Pura consiste em aprender o Ensinamento Búdico recitando o Nembutsu em nossos lares. Todos os monges budistas que aqui estão, inclusive eu, não são ascetas. Somos todos budistas que aprendemos como vivera través do Nembutsu.

Acredito que nenhum de vocês poderia abandonar o lar para se entregar a práticas ascéticas em montanhas bravias. Vocês têm sua profissão e sua vida no lar. Assim, é uma grande felicidade vocês estarem relacionados com a Verdadeira Escola da Terra Pura, que permite aprender o Budismo no recesso do lar.

Podemos ser salvos por preces?

Quero discorrer agora sobre o fato das práticas ascéticas e as preces não nos propiciarem a verdadeira paz de espírito. Darei um exemplo. Uma pessoa doente me escreveu uma carta dizendo o seguinte:

“Às vezes eu acho que o Buda é parcial. Isso porque, de um lado temos pessoas como eu, sofrendo há várias dezenas de anos por causa de uma doença atroz, ao passo que do outro lado temos pessoas que vivem alegremente. Por mais que eu ore, não saro de minha doença. Em volta de mim, porém, vejo muitas pessoas saudáveis. O Buda não será mesmo parcial? O Sr.que é um estudioso do Budismo, responda, por favor, a esta minha indagação.”

O que vocês acham? Podemos curar doenças com preces? Há pessoas que oram para ganhar dinheiro. Será que as orações fazem as pessoas ganharem dinheiro? Há pessoas que oram para não morrerem. Será que as orações podem tornar alguém imortal? Enquanto pensarmos dessa forma permaneceremos sempre sofrendo, com o coração tomado por esses anseios. Se pudéssemos obter curas apenas em troca de um simples donativo a um templo, não precisaríamos mais de médicos. Há pessoas que acham que o Budismo consiste em tais ensinamentos mas isso não é o Budismo autêntico. Isso não passa de uma manipulação do Budismo que visa a satisfação de nossas ambições.

Então, minha gente, será verdade que preces podem curar doenças e proporcionar dinheiro? Façam de conta que vocês acabaram de ganhar na loteria. O que vocês pensam numa hora dessas? Certamente ficam querendo ganhar mais dinheiro ainda numa próxima oportunidade. E depois, hão de querer mais ainda. Em suma, seus corações estarão para sempre prisioneiros do desejo de ganhar cada vez mais. Enquanto pensarem dessa forma, não terão, pois, a paz de espírito. Vocês estarão se atormentando a si próprios. Geralmente o sofrimento é um tormento que nós nos infligimos a nós mesmos. Nós nos atormentamos com nossos próprios pensamentos. Assim, no Japão, a luta por uma vaga no vestibular é uma verdadeira guerra que aflige os jovens. Acredito que no Brasil também ocorra algo semelhante. No Japão, os vestibulandos varam a madrugada estudando como loucos. Assim, tornam-se bons estudantes mas sua personalidade fica algo deformada. Eles se atormentam a si próprios obcecados pela vontade de alcançarem bons resultados na escola.

Aprendendo com a verdade

Há pouco, na nave do Templo, foi recitado o “Sutra de Amida” (Amida-Kyo). Nesse Sutra está escrito que se recitarmos o Nembutsu com afinco durante um, dois, três ou sete dias, nossos desejos não serão realizados. O que vai acontecer é justamente o contrário. Não devemos rezar mas sim observar cuidadosamente a realidade. Enquanto que, julgando-nos vítimas de algum poder parcial, ficamos orando aqui e acolá pela cura de nossa doença, esta vai piorando cada vez mais. Quanto mais orarmos, achando que a saúde é a condição normal e lamentando nossa condição de doentes, mais iremos sofre. É exatamente o contrário. Se soubermos encarar a realidade, verificaremos que o normal é que nosso corpo carnal seja sujeito à doença. Nosso corpo carnal tem fases de doença e fases de saúde. Só quando encararmos a doença como um fato natural estaremos em condições de encarar o médico. Em outras palavras, trata-se de assumir a doença.

Nós consideramos a juventude como boa e a velhice como ruim. Oramos para permanecer sempre jovens. Entretanto, o que vocês acham? Pode uma pessoa de 60 anos permanecer como se ela tivesse apenas 20 anos? Não seria isso esquisito? O envelhecimento é um fato normal. Se a pessoa conseguir encarar a realidade de estar ficando com a pele enrugada e com os cabelos brancos estará assumindo seu envelhecimento. Com a morte ocorre o mesmo. Não adianta ficar rezando para ter uma vida longa ou para não morrer. Enquanto ficarmos nessa atitude, encarar a morte será um sofrimento. O contrário é que é verdadeiro. Quando o momento chegar, certamente morreremos. Encarando a morte como algo normal estaremos em condições de aceitar a própria morte. Aí está a verdadeira paz de espírito. Assim, a salvação do Budismo não consiste em buscar a resolução da dor através de milagres mas sim em obter a coragem de assumir a dor através da observação da realidade. Tal é a salvação no Budismo.

Na vida do lar enfrentamos vários acontecimentos, muitos deles dolorosos. Temos, por exemplo, divergências de opinião entre a vovó e o filho ou entre o vovô e a nora. Há muita complicação na vida familiar. Pensando bem, sofre-se por causa de um choque de caprichos. Observando bem a realidade, as pessoas poderão admitir isso e cederem em suas posições.

O que é Buda?

O Budismo é a Doutrina que nos permite observar nossos pensamentos e atitudes equivocadas à luz do Dharma ou da Lei Búdica. Nós sempre achamos que estamos certos. Nós somos auto-indulgentes. Entretanto, à luz das leis que regem a realidade somos levados a perceber nossa postura errônea. Essas leis que regem o real, são denominadas Dharma. O Dharma não tem cor nem forma. O Buda também não tem cor nem forma. O Budismo não é uma idolatria. Entretanto, sendo difícil perceber algo que não tem cor nem forma, admitem-se as estátuas de Buda como representações provisórias. Os meios usados para indicar aquilo que não tem cor ou forma são, no Budismo, denominados upaya (hábeis meios salvíficos). À luz dessa realidade sem cor ou forma percebemos quão equivocados e arbitrários são nossos pensamentos. A operação que assim nos esclarece é a operação búdica.

Vocês podem estar estranhando a existência de algo sem cor ou forma. Quando dou aulas de Budismo na Universidade, os estudantes novatos me interpelam – Como podemos saber se o Buda existe ou não, se ele não tem cor ou forma? – O Buda existe ou não? O que vocês acham? Acredito que vocês pensam que algo sem cor ou forma não possa existir.

Entretanto, darei um exemplo de algo que existe ser ter cor ou forma. É o vento que agita as árvores. O vento não tem cor, nem forma e nem cheiro. Às vezes ele nos traz cheiros gostosos mas não são dele. Ele apenas os transporta. O vento não tem cor ou forma mas nós normalmente falamos de seguinte maneira: tem vento ou não? Hoje tem vento ou não. Parece que não tem muito. Então, por que discutimos se algo sem cor ou forma existe ou não? Em que nos baseamos para dizer se algo assim existe ou não? Em suma, nós sabemos se há ou não vento através da atividade do mesmo. Se os galhos estão balançando e fazem ruído, se um papel está sendo agitado nós sabemos que há vento. Assim, admitimos a existência do vento através das operações do mesmo.

O mesmo ocorre com o Buda. Sabemos da existência do mesmo através de suas operações. A operação búdica é aquela que nos esclarece, ou então aquela que nos vivifica e sustenta.

Por mais que queiramos, não podemos nos observar a nós mesmos. Quando eu era pequeno, meu professor me mandava me observar a mim mesmo e refletir. Entretanto, sempre que eu refletia tinha pensamentos de auto-indulgência:

— Por que o professor só fica bravo comigo, se todos nós é que fazemos juntos coisas erradas? A verdade é que somos auto-indulgentes e só nos observamos a partir de um prisma favorável a nós mesmos. Não podemos nos encarar a nós mesmos como somos na realidade. Só podemos nos questionar quando nos vemos iluminados por uma luz que nos transcende. Assim, podemos tomar consciência de nossos erros quando asperamente repreendidos por alguém cuja posição transcende nossos interesses. Até mesmo no lar existem muitas coisas que assim chamam nossa atenção. Podemos assim nos defrontar com coisas que transcendem nossa posição.

Aprendendo com tudo

Um professor que eu respeito muito costumava agradecer aos panos de limpeza por eles se sujarem para limparem as coisas. Ele aprendia a viver com os panos de limpeza. Às vezes aprendemos também com as crianças. O egoísmo nos faz pensa que os filhos são nossos e que somos nós que os educamos. Certa vez, em minha casa aconteceu o seguinte: Na hora do jantar, minha filha, aluna da escola primária disse:

— Amanhã a professora virá, é preciso limpar a entrada da casa e a sala de visitas.

Em suma, tratava-se de limpar apenas a entrada da casa e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira estava limpa. O mundo infantil já é bem diferente. Minha filha sempre convida as amiguinhas para brincar em casa. Ela abre então o seu quarto e expõe todos os seus brinquedos mais queridos para brincarem juntas. No mundo infantil não existe frente e verso. As crianças mostram tudo. Já nós adultos limpamos só a entrada e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira está limpa. Assim, minha filha me dá lições. Da perspectiva egoísta de que os filhos são nossos, não é possível perceber nada. Entretanto, à luz de um prisma que transcende o ego, podemos receber lições de nossos próprios filhos.

Alguns aprendem com as flores de cerejeira. Observando que algumas caem enquanto outras permanecem na árvore, pode alguém aprender sobre sua vida e sobre a sua morte. A observação das flores de cerejeira pode eliminar o sentimento errôneo de que só os outros morrem, eu não.

Certa vez, um paciente de câncer aprendeu algo interessante. Ele disse que quando adoeceu e se internou, o mundo tinha um aspecto prosaico e banal. Entretanto, quando, depois de operado, ele se preparava para deixar o hospital, parecia-lhe que as árvores brilhavam. Até o mato que brotava das fendas do asfalto, à beira do caminho, parecia belo e gracioso. Enfim, operando-se de câncer, ele havia se defrontado com a morte. Depois disso, até o mato parecia gracioso. Em suma, sua situação lhe mostrou o fato dele ser vivificado.

Assim, poderemos perceber que todas as coisas atuam sobre nós mesmos. Entretanto, aquele que se sente como o certo e o perfeito não percebe essas possibilidades de aprendizado. Aquele que tem o pensamento centrado em si mesmo, julgando-se certo e perfeito, é, do ponto de vista budista, um prisioneiro do ego. A contemplação da realidade nos faz tomar consciência de nosso ego. O ego é sofrimento só seu questionamento permite transcender o sofrimento. As diferentes operações que nos fazem tomar consciência de nosso ego são operações búdicas.

O que é o Namu Amida Butsu?

O “Sutra de Amida” que eu citei há pouco nos diz que em torno de nós estão incontáveis Budas, tão numerosos como os grão de areia no fundo do rio Ganges na Índia. No leste, no sul, no oeste e no norte, no zênite e no nadir, em todas as direções estão incontáveis Budas atuando sobre nós, para que nós despertemos, ensina o Sutra. O Buda é aquele que nos faz despertar e aprender. Seu nome é Amida. A frase Namu Amida Butsu expressa nosso ato de reverência para com ele. Namu significa prestar reverência. Prestar reverência a aquilo que nos ensina e nos vivifica, eis a postura de vida própria de um budista.Vocês prestam reverencia de mãos postas. Prestar reverência não pode nem deve ser uma prece em que pedimos ao Buda a satisfação de nossos desejos egoístas. Prestar reverência significa perceber a atuação búdica e aprender humildemente com ela.

O termo Namu, de origem sânscrita, tem o sentido de contemplar reverentemente algo, de cabeça baixa. Não significa baixar deliberadamente a cabeça. É a cabeça que espontaneamente se inclina com respeito.

Assim, Namu Amida Butsu significa contemplar respeitosamente algo que nos transcende e nos ilumina. Gostaria que vocês recitassem o Namu Amida Butsu com as mãos postas tendo em mente esse significado. O Namu Amida Butsu não é uma prece cuja eficácia depende do número de recitações para produzir bons efeitos nem é uma fórmula mágica. Recitem-na em qualquer momento, em sinal de reverência para com algo que os ilumine. Falei a vocês com o objetivo de transmitir o ensinamento da Verdadeira Escola da Terá Pura da maneira mais fácil possível. Não sei se consegui. Se tiverem dúvidas, consultem os missionários.

Estou voltando hoje para o Japão. Sinto-me muito emocionado pelo fato de pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão, no mundo inteiro, enfim, estarem questionando sua maneira de viver à luz do Namu Amida Butsu. Encerro esta fala tornando pública minha gratidão por ter podido lhes falar neste significativo dia de Obon.

Texto por Reverendo Shuko Tashiro
Tradução do Reverendo Ricardo Mário Gonçalves