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Unidade entre Vida e Morte – Seminário para Diretores das Associações Religiosas – 2018 Rev. Bunsho Obata

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Boa tarde a todos.
Hoje, estamos reunidos aqui para o Seminário dos Diretores das Associações Budistas, que, como o nome diz, reúne membros regionais que mantêm os templos da nossa Ordem Shinshû Ôtani-ha. Justa ocasião para falar sobre a importância do significado desta manutenção. Em sequência, gostaria de abordar o tema: “Unidade entre Vida e Morte” [shôji iti-nyo].
Dentre os 25 templos da Ordem Ôtani mantidos pelos fiéis e que pertencem à Missão Sul-Americana, 15 deles possuem missionários residentes. Além desses, a nossa Missão possui 8 espaços para a prática do “Escutar o Dharma” (Escutar os Ensinamentos Búdicos) em diferentes regiões, também mantidos pelos associados destas regiões onde não há um templo sede em si.
Assim é composta a nossa Missão Sul-Americana do Budismo Shin, Ordem Ôtani.
Cada um desses locais para “Escutar o Dharma” (Monpô Dôjô) foi construído com muito empenho pelos antepassados para transmitir-nos o que de fato é importante para viver e mostrar-nos qual é a essência da nossa vida. No desejo de deixar para nós esta mensagem, construíram os templos como Locais para se Escutar o Dharma.
O Rev. Shigeshi Wada escreveu a respeito de sua rotina no templo:
“Amanhece e entardece,
e eu dentro deste pequeno templo,
apenas recito o Nembutsu.
Vivo impulsionado pelo Grande Voto!”
Aqui, ele descreve o seu coração cheio de felicidade por viver no espaço construído com o poder do Grande Voto, para que ele possa “Escutar o Dharma”.
Os templos foram construídos como locais (dôjô) nascidos através da ação do Grande Voto de Amida.
Originalmente, “Escutar o Dharma” (monpô) significa questionar “quem sou eu?” sob a ótica da Doutrina do Buda, o Dharma.
Normalmente, nós pensamos saber tudo sobre nós mesmos, mais do que ninguém. Ledo engano! Todos nós, quando cometemos algum erro, logo nos queixamos: “Ah, não pode estar acontecendo isso! Deveria ter feito assim ou assado!” E, para não assumirmos nossa responsabilidade, culpamos o outro. O culpado é sempre o outro. Eu estou sempre certo. Eu estou sempre correto. Ou seja, eu sou o bom e o outro é o mau. E, a partir disso, não preciso mais refletir.
O Mestre Shinran chamou a isso de personalidade má, sem arrependimento, ou seja, aquele que pratica a maldade sem nenhuma reflexão. O mau é sempre o outro. Eu sou sempre bom. Embora não me conhecendo verdadeiramente, eu sou assim, ignorante mesmo. Sendo ignorante e como faço de mim o centro de tudo, ninguém me ensina a verdade e encerra a vida sem saber o significado de ter nascido e nem a alegria de ter vivido como um ser humano.
Foi exatamente para nós que levamos a vida de maneira tola e miserável que nossos antepassados falecidos se tornaram Budas e nos legaram os “Espaços para Escutar o Dharma” (monpô dôjô), ou seja, os templos.
Os templos foram construídos e nos foram legados com o objetivo de que possamos recitar o Nome Sagrado do Buda, o Namu Amida Butsu. E ainda, para compreendermos através da doutrina do Nome Sagrado que escutamos dentro dos templos, quem somos e para que recebemos a vida como seres humanos. Decididamente, é dentro do templo que escutamos o chamado do Buda através da recitação do Namu Amida Butsu, percebermos que estávamos saindo do caminho correto do ser humano e reconhecermos então, que havíamos perdido de vista quem de fato nós somos. É ali que tomamos a decisão de trilhar o Caminho Budista, pois, o templo é o espaço para escutarmos o Dharma e é onde nasce o verdadeiro ser humano.
Todos vocês, diretores das Associações Budistas ou devotos presentes hoje neste seminário, envolveram-se nas construções e manutenção desses templos e aqui estão escutando os ensinamentos como portadores de uma grande missão. É, portanto, o anseio do Buda Amida que possamos confirmar a importância desta missão, mais uma vez no dia de hoje.

A seguir, gostaria de abordar o tema “Unidade entre a vida e a morte” (Vida e morte, uma só realidade) [shôji iti-nyo].
Anteriormente, falei que nós não sabemos nem sequer quem somos e, no entanto, acreditamos aleatoriamente que somos bons. Não nos avaliamos e nos julgamos corretos. Entretanto, esse pensamento é o do ser humano que vive nas trevas da ignorância.
Vamos pegar um exemplo geral para uma melhor compreensão: política mundial.
O século XX foi uma Era de guerras. O século XXI também, sem alterações, segue pelo mesmo caminho, pois os focos das guerras não cessam em vários lugares do nosso mundo. Seja onde for que esteja havendo uma guerra, o motivo não muda: ela sempre começa a partir do princípio de que “eu sou o correto”. Assim, o mensageiro da justiça luta contra outro mensageiro da justiça. Tomando isso como exemplo, podemos perceber que a origem das tragédias, está sempre no pensamento de que “eu sou o correto”.
Desde tempos imemoriais, desde a época do surgimento do ser humano na Terra, o coração compassivo do Buda Amida vem manifestando sua tristeza e compaixão para com a humanidade, que assim se comporta. Pois assim é a Grande Compaixão do Buda Amida.
A grandeza do coração búdico é inacessível à nossa condição humana. A isso, o Budismo da Terra Pura chama de Voto Original do Buda Amida. Enquanto não nos encontrarmos com esta Grande Compaixão de Amida e não escutarmos o seu chamado, nós não nos conheceremos verdadeiramente.
Então pergunto: como podemos encontrá-lo? Certamente, não o encontraremos se continuarmos a viver do jeito que vivemos, pois, não nos conhecemos. Não tomamos conhecimento do nosso passado, nem como viveremos no futuro, nem da nossa atual maneira de viver, porque ignoramos o significado de viver verdadeiramente. Assim sendo, continuaremos a avaliar tudo centrados na conveniência própria. A consequência disso é que vivemos num mundo onde nos ferimos, além de continuarmos a ferir os outros.
Vamos supor outra situação, por exemplo, a política de Trump, atual presidente dos Estados Unidos da América, que pode ser citada como expressão tipicamente egoísta do ser humano.
Vamos analisá-la. A política de Trump é “A América primeiro!”, quer dizer, a prioridade é a América. Na cabeça dele, nem por um segundo passa a ideia de uma “terra compartilhada” como na doutrina budista. Para ele importa apenas o lucro da América. Sob seus olhos, os lucros de outros países estão fora de questão.
O Budismo do Grande Veículo [Mahayana] é a doutrina da “igualdade do meu e do seu lucro. Da harmonia da vantagem para todos” [jiri-rita enman]. Dessa forma, podemos afirmar que a política de Trump é exatamente o oposto deste ensinamento búdico. Isto é muito nítido na sua declaração de construção do grande muro na fronteira com o México, ou quando declarou Jerusalém capital de Israel, possibilitando o aumento de conflitos entre árabes e judeus.
Outro problema é a Coréia do Norte. Neste caso está fora do seu contexto a segurança e a paz da Coréia do Sul e do Japão, países que poderão se transformar em mar de fogo, caso ocorra de fato uma guerra entre a América e a Coréia do Norte.
Não precisamos de maiores esclarecimentos para prever este resultado.
Somente o diálogo, não o confronto é a essência da solução de problemas.
Não há espaço para a expressão “A América primeiro!”.
Viver centrado em si é a afirmação absoluta da consciência do ego que pensa: Se for conveniente para mim, isso é bom, caso contrário é mau.
Vou contar uma historinha curiosa. Dia 3 de fevereiro existe um evento no Japão chamado “setsu-bun”. Com exceção dos templos da Terra Pura, a maioria dos templos budistas e santuários xintoístas realiza esse evento estranho que consiste em jogar grãos de soja gritando em alto e bom som: “demônios para fora… sorte para dentro!” [oni-wa soto… fuku-wa uchi]. O demônio [oni] neste caso representa coisas e pessoas inconvenientes para cada um de nós. Não quer dizer que exista um demônio em si. Eu o criei. Assim como a sorte, eu a criei. Toda realidade que me é conveniente, ou todas pessoas que são convenientes eu considero como sorte e fortuna.
Esse evento “setsu-bun” (demônios para fora… sorte para dentro) é a própria expressão da natureza humana. Ainda bem que o Budismo Shin não realiza esse tipo de evento; embora, a maioria dos templos e santuários japoneses ainda o realizem até os dias atuais, não obstante, contra os ensinamentos budistas.
O Budismo questiona frontalmente esta conduta do ser humano que age apenas de acordo com a conveniência própria. E no meio do “Setsu-bun” existe um evento no Templo Zaô situado no Monte Yoshino, província de Nara que nos faz pensar sobre a nossa conduta. Ali, o grito é: “sorte para dentro… e demônios também para dentro!” [fuku-wa uchi… oni-mo uchi]. Isso quer dizer que assumimos o que e quem não nos é conveniente como parte de nós mesmos. Isto sim é um pensamento budista.
Outro exemplo: a palavra que mais desagrada as pessoas é “morte” e ao contrário a que mais gostamos é “vida”. Basta lembrar que para viver até ferimos os outros. Entretanto, não queremos lembrar que cada um de nós um dia morrerá. Tememos, não gostamos e não queremos pensar na morte. Esta é nossa postura perante a vida.
O fonema japonês para o número quatro é “shi” [四], o mesmo da palavra morte “shi” [死], então, no Japão evita-se o fonema “shi” e até nas numerações quartos de hotéis o número quatro é evitado.
No Japão há também o hábito de jogar sal nas pessoas que participaram de um velório, antes delas entrarem em casa, para que não tragam consigo nenhum espírito impuro, como necessidade de purificação. Tudo para evitar a morte ou não querer admitir o fato de que com certeza também um dia nós morreremos.
A noção de querer evitar o que nos é inconveniente nos faz considerar como impura até a morte de alguém que amamos e respeitamos.
Como temos pensamentos egoístas!
Entretanto, o pensamento budista não rejeita a morte. Pelo contrário, considera a vida e a morte como uma unidade. Na expressão budista se diz: “Vida e morte, uma só realidade” [shôji iti-nyo]. Em outras palavras, a vida e a morte tem a igualdade. Por existir a morte, existe a vida; e por existir a vida, existe a morte. Nas palavras do Mestre Kiyozawa Manshi: “Nós não somos apenas vida, somos também a morte. Somos vida-e-morte”.
Outro exemplo, são as palavras do Mestre Shinran: “O Budismo não é um ensinamento para afastar as coisas que me são inconvenientes a fim de obter a felicidade. Pelo contrário, o Budismo nos ensina a assumir aquilo me é inconveniente para nos conhecermos a nós mesmos e esclarecer o verdadeiro significado de se viver corretamente como seres humanos”.
No capítulo II do Tratado de Lamentação das Heresias [Tannishô], o Mestre Shinran fala de sua condição humana, dizendo-se um ser leviano, cheio de paixões mundanas, incapaz de realizar qualquer prática para a sua salvação; assim sendo só o inferno seria sua morada. No texto original consta: “Entretanto, sou incapaz de realizar qualquer prática, já que estou predestinado aos infernos desde o início”. Essas são palavras de quem reconhece o inferno, mas, tem o intuito de viver. A isto, o Mestre Yasuda Rijin acrescentou: “Esse é o espírito de quem carrega a Fé Genuína, bem como o inferno, dentro de si”. Caso contrário ele seria aquela pessoa que afasta de si a realidade, a morte, o inferno, tudo enfim que lhe seja inconveniente. Tal maneira de viver seria comparável a um avião com dois motores, mas que voa no céu usando apenas um motor, o que tornaria o voo inseguro e estranho, com tendência a cair a qualquer momento.
O Dharma do Buda, que nos ensina a unidade da vida-e-morte, nos mostra que os inconvenientes e os sofrimentos da vida são condições cármicas, ou seja, surgem da própria realidade da vida humana. Aceitar e assumir tais inconveniências e sofrimentos é a correta maneira de viver.
O Budismo não ensina a mascarar a realidade da vida. Assim, o templo não é um local para pedir a realização da nossa vontade. Pelo contrário, é onde refletimos sobre a nossa conduta diária egocêntrica, na qual vivemos apenas calculando lucros e perdas. Isso significa que o nosso envolvimento com o templo não depende só da nossa razão e desejo. O Grande Voto do Buda Amida nos move e nos oferece a oportunidade de tomarmos consciência de quem realmente somos.
Convido, então, a todos aqui presentes, diretores e fiéis, unidos pela ação do Voto Original, para que tenhamos sempre em mente o propósito de juntos cuidarmos da manutenção dos nossos espaços sagrados [dôjô].
Muito obrigado.