Reflexão para o Ohigan – A Não Dicotomização

Duas vezes por ano, celebramos o Ohigan. Em termos de astronomia, é no dia do Ohigan que o Sol se ergue diretamente no leste e se põe diretamente no oeste. Desse modo, a duração do dia e da noite são iguais. O Ohigan também representa uma estação nem demasiado quente nem demasiado fria, assim simbolizando o Caminho do Meio [1] do Budismo. Durante muitos séculos, a semana do equinócio (igual duração do dia e da noite) foi escolhida como a Semana do Ohigan, dando-nos a oportunidade de nos reunir no templo, ouvir palestras, prestar algum serviço social, celebrar serviços em memória dos nossos entes queridos falecidos e expressar-lhes nossa gratidão, e, em suma, dar-nos tempo para a auto-reflexão — quem sou eu, qual é a verdade das coisas. Penso que essa é a importância da época do Ohigan e de seus rituais.

Ohigan é uma palavra japonesa: o O é um título honorífico e Higan significa “a outra margem” [2].

Mas, na verdade, Higan é uma abreviação de Tôhigan, onde Tô significa “atravessar” e como Higan quer dizer “A Outra Margem”, Tôhigan que dizer “atravessar para a outra margem”. Tô é a parte mais significativa da para palavra Tôhigan. Higan, a menos que sejamos muito cautelosos, torna-se um conceito. Mas Tô (atravessar, ir) não é um conceito; é a experiência, é a vivência. Desse modo, o importante é atravessar para a outra margem, e eu gostaria de enfatizar mais o Tô do que o Higan. Ele dizer viver o dia-a-dia. O destino, a meta, o fim, o Higan, acaba por ser alcançado se você dá cada passo no caminho perfeito. Se os meios são perfeitos, é natural que alcancemos o objetivo perfeito. Assim, os meios são mais importantes que o objetivo. Eu não deveria dizer “mais importantes”, pois isso divide os meios e os fins em duas coisas, enquanto que os meios são fins e os fins são os meios. Sabendo-se isso, a palavra Higan torna-se perfeitamente compreensível sem o acréscimo do verbo Tô. Atravessar é a outra margem.

Já que a época do Higan é um momento para a auto-reflexão, eu gostaria de falar sobre o ego. Parece que no chamado “mundo livre”, os países do Ocidente, nossa civilização e cultura são o auge do desenvolvimento do ego. Nossa ciência política, educação, economia, etc. estão todas voltadas para o desenvolvimento do ego, da personalidade individual. Parece-nos lógico e legítimo respeitar o indivíduo, reconhecer a dignidade do indivíduo. Mas temos uma forte inclinação a apoiar, desenvolver, expandir e afirmar o eu. (A palavra “eu” — o self, o si-mesmo — parece indicar o indivíduo sem dar-lhe a conotação de egoísmo, enquanto que “ego” conota o egoísmo; no entanto, em essência, “eu”, “ego” ou “identidade individual” talvez sejam a mesma coisa.) Afirmamos nosso ego. “Eu tenho o direito, você não tem o direito de pôr-se em meu caminho”. Nosso conceito de liberdade significa esse desenvolvimento do ego. Nós, os norte-americanos, falamos em liberdade. Ao declarar a liberdade, oprimimos os outros. O mesmo acontece com os russos. Ao declarar seu ideal, o comunismo, eles oprimem os outros. Seja a América livre ou a U.R.S.S. [3] comunista, ambas estão desenvolvendo ou promovendo o ego. Toda a nossa civilização é essa promoção do ego, a expansão e desenvolvimento do ego.

O pensamento de Hegel, filósofo alemão, consistia no reconhecimento de tudo, na aceitação de tudo; isso está certo, aquilo está certo, aceite isso, aceite aquilo. Os componentes da dialética de Hegel são: a tese, a antítese e a síntese. A tese é a realidade da situação presente. O elemento novo, que vem se opor à tese, é a antítese. Unidas, a tese e a antítese formam a síntese. Este seria o processo da vida. Este seria o processo do estado da sociedade. Este seria o processo do progresso. O pensamento de Hegel não nega coisa alguma. Tudo é aceito e tudo se desenvolve por si mesmo no processo dialético de tese, antítese e síntese.

Já o pensamento do dinamarquês Kierkegaard, por outro lado, consistia em selecionar uma coisa e negar todas as outras. Esta é a base de seu existencialismo: tomar uma certa coisa, afirmá-la e negar as outras. Hegel e Kierkegaard representam dois sistemas de vida. Kierkegaard negava tudo, mas afirmava a existência de Deus. O mesmo ocorria com Kant. Immanuel Kant, o mais importante filósofo da Alemanha, nega todas as coisas em sua “Crítica da Razão Pura”. No entanto, ao afirmar a razão prática, acaba afirmando Deus.

Carlyle, filósofo inglês conhecido por seu característico modo de vida, disse que a completa negação é a completa afirmação. Isto parece muito próximo do caminho ensinado por Buda. E também Kitaro Nishida, o notável filósofo do Japão moderno, apresentou a mesma perspectiva de compreensão: a completa negação é a completa afirmação.

No Budismo, especialmente no Prajnaparamita-Sutra [4], ensina-se o não-ego. Com muita freqüência, o termo sunyata [5]— o vazio, o nada, o suchness [6] (a coisa tal como ela é) — indica a completa negação, a essência do nada. No Prajnaparamita-Sutra, a própria negação também é negada. Se existe alguma coisa afirmativa além da negação, não há negação. Assim, no Prajnaparamita-Sutra, a negação também é negada. No meu entender, essa atitude da negação é muito importante. No Ocidente, todas as coisas seguem o caminho da afirmação, enquanto que, no Oriente, o modo geral de expressão e compreensão é através da negação. A afirmação limita a si mesma. Só através da negação poderá a verdade absoluta ou total ser expressa.

Estamos muito habituados a isso no Ocidente: não queremos ser negativos, não queremos ser passivos; queremos sempre ser agressivos, positivos, ativos e dinâmicos. No Oriente, a atitude é mais passiva, mais negativa e mais estática; porém, essa qualidade estática ou negatividade, não está relacionada com a positividade ou afirmação. A negação oriental ou budista é que a própria negação é negada.

Kierkegaard e Kant negaram todas as coisas com a única exceção de terem afirmado Deus. Negar todas as coisas e afirmar uma coisa, não é negação no sentido budista. O caminho budista é que a negação também é negada. Nada é afirmado, mas tudo é negado. A verdadeira afirmação é que não existe nenhuma afirmação. A transformação contínua é a permanência. Samsara [7] é Nirvana [8]; Nirvana é Samsara. O fluxo contínuo de água é o rio. Dizer que a completa negação é a completa afirmação é dizer que a própria transformação contínua é a permanência.

O Shin-Shû [9] ensina o “Outro-Poder” [10], negando o eu e confiando no “Outro-Poder”. Este é um modo muito perigoso de compreensão: negar o eu e procurar o “Outro-Poder”. Não, não se trata de duas coisas. Não existe nenhum outro poder além deste eu. A própria negação do eu é o outro poder.

Muitas pessoas compreendem isto como negar ou rejeitar o eu e então procurar o outro poder. Negar o eu e depender do outro poder, isso é dualístico. Não é este tipo de negação, mas sim a própria negação que é a afirmação. Quando o eu se extingue, existe o outro poder. Sem extinguir o eu, não existe o outro poder. A extinção é o outro poder. A negação não é comparada com a afirmação, nem oposta a ela. O não-ego, o não-eu ou o “nada” não é comparado ou oposto a alguma coisa que existe. Higan — a outra margem — não está do lado de lá em comparação com o lado de cá; Higan está aqui. Quando esse eu se extingue, existe o Verdadeiro Eu. Higan, é claro, não é um lugar geográfico específico, um ali, uma outra margem; Higan tampouco é um mundo conceitual contraposto a este mundo. Nesta vida, quando transcendemos o ego, o próprio transcender é o não-eu.

Falamos sobre a unidade, a unidade de duas coisas. Essa não é a verdadeira unidade. Por exemplo, considera-se que marido e esposa estão unidos em uma única vida harmoniosa. Este é o conceito geral de unidade no Ocidente — a esposa enquanto indivíduo e o marido enquanto indivíduo, estão unidos numa unidade, num ser único. Mas a unicidade budista não este tipo de unicidade. Quando o marido extingue seu ego (o próprio marido) ou quando a esposa extingue seu ego (a própria esposa), quando tudo se extingue, existe unicidade. Unicidade não é unir em um só. Mas quando tudo se extingue no nada, isso é unicidade. Não unir, mas extinguir. A completa negação é a completa afirmação.

Nossa tendência é dicotomizar todas as coisas, e então tentar construir unidade e harmonia entre as duas metades. Não existe harmonia quando você põe duas coisas juntas. Somente quanto extinguir a si mesmo é que você se encontrará. Esta é a compreensão básica do Budismo: Sunyata, o “nada”, a “coisa como ela é”. Há uma expressão japonesa “Jiriki-wo suteru”: “Lance fora o auto-poder” (o poder do eu). O próprio ato de extinguir o poder do eu é o outro poder.

Na expressão budista, também há dois modos de olharmos as coisas. (É claro que vivemos neste mundo espacial; vivemos no mundo temporal; e, assim, temos de ver as coisas de um modo relativo. Mas essa relação não é a verdade.) Como eu dizia, o Budismo tem dois modos de compreender as coisas. Um deles é o modo de Hegel — aceitar todas as coisas. A isto chamamos shoju, querendo dizer que nada é lançado fora, tudo é bom, tudo é belo e valioso, tudo tem seu lugar e por isso aceitamos todas as coisas e não negamos nada. Isto também é chamado shoju-mon — o portal de shoju — que significa deixar entrar todas as coisas.

O segundo modo que os budistas têm para compreender as coisas é o shaku-buku. O portal do shaku-buku é o de escolher uma coisa e negar todas as outras. Hônen Shônin [11], o mestre de Shinran, afirmou o “Senjaku-Hongan”, o que significa aceitar o Hongan [12] e rejeitar todas as outras coisas. Esse “Senjaku-Hongan” — ou escolher o Hongan (geralmente traduzido como “Voto Original”, o que talvez não transmita seu real sentido) — significa escolher a verdadeira vida e negar as demais. Dizer isso parece dualístico. Mas, escolher apenas o verdadeiro é, em si, negar o falso; trata-se de uma coisa, não de duas. A escolha do verdadeiro é a negação do falso. Honestidade que dizer que não existe mentira. Você não abandona a mentira e estabelece a verdade. Não, não é isso. É uma unicidade simultânea.

É por isso que um é muitos e muitos são um, como se diz no Budismo. Eu sou todos e todos são eu. No meu entender, esse mundo indiviso, não-dualístico, não-egóico, é Higan. Quando examino a mim mesmo, vejo que estou cheio de ego. Todos os problemas, misérias, infelicidade, inquietação, são ego; nada além do ego. Se você tem problemas em sua vida, preocupações em sua vida, isto nada mais é que o ego. O ego cria problemas, misérias e sofrimento. O ego cria apego e fixações.

Numa recente reunião do grupo Asoka [13], uma dos membros me disse:

— Sabe, Reverendo, há algum tempo o senhor escreveu um artigo sobre o desapego no Boletim. Eu sempre carrego esse artigo comigo e ele já me salvou várias vezes. Tenho muitos problemas e, quando penso nisso, vejo que eles são causados pelo meu apego aos amigos, ao dinheiro, a certas palavras que os amigos dizem… todas as misérias que experimento são causadas pelo meu apego, pelo minha ignorância. E o seu artigo sobre o desapego… já nem sei quantas vezes ele me ajudou, está todo amarfanhado no fundo da minha pasta, mas ainda o carrego comigo. Eu só queria que o senhor soubesse o quanto aprecio aquele pequeno artigo.

Não me recordo quando escrevi aquele artigo, nem lembro o que escrevi. Esqueci por completo. Mas, naquela ocasião, devo ter sentido o desapego como algo muito útil para mim e, desse modo, minha expressão, minha experiência do desapego, colocada no papel, ajudou outras pessoas. Eu não tivera a intenção de ensinar os outros; estava simplesmente expressando a mim mesmo. Mas, como a vida é una, aquilo ajudou os outros. O modo como eu sofro é o mesmo modo como você sofre e o mesmo modo como o Buda Shakyamuni sofreu; e ele resolveu isso, assim como o fez Shinran, assim como o fez meu mestre Akegarasu. Eles viveram a vida. A vida deles é, em si mesma, ensinamento. Quando o sol brilha, todos nós nos beneficiamos. O Sol, o astro, não está consciente de estar sendo benéfico. O Sol nunca percebeu quaisquer motivos altruístas, nunca pensou, “Eu estou brilhando”. Ele apenas brilha. A vida também é assim. No meu entender, Ohigan é esse não-eu. Quanto mais ego encontro em mim, mais significado encontro no Higan. Não se trata do não-eu enquanto separado do ego, mas sim de, no próprio fato de perceber meu ego, eu alcançar o não-eu, o Higan.

Desse modo, para mim, o Higan é muito valioso para minhas próprias reflexões sobre os ensinamentos. E, este ano, o Higan significa para mim o não-eu, a vida do não-eu. Mas, é claro, o Higan, como geralmente é ensinado, consiste nos seis Paramitas [14]: compartilhamento, observância dos preceitos, paciência, esforço, meditação e sabedoria. Estas são as seis virtudes ou seis perfeições. Se você as levar a sério, cada uma delas conduzirá ao não-eu, à ausência do eu. A ausência do eu é o Higan, o mundo de Buda, o mundo do Nembutsu [15] o mundo da unicidade — a completa negação que é a completa afirmação. Essa é a verdadeira vida, a vida tal como ela é, o Ohigan.

Rev. Gyomay M. Kubose
In: Budismo Essencial – A arte de viver o dia-a-dia,
Ed. Budagaya & Axis Mundi – São Paulo – 1995.

Notas:

  1. Caminho do Meio: Um dos conceitos fundamentais do Budismo, sendo considerado por si só como sinônimo do próprio Budismo. É o ensinamento em que o Buda aconselha a todos a se afastarem dos extremos da vida e buscarem um modo de vida harmônico, pacífico e equilibrado. O próprio Buda Shakyamuni vivenciou este caminho, após ter experimentado por si mesmo os extremos de uma vida materialista, enquanto príncipe dos Shákyas e depois por seis anos, os extremos de um ascetismo religioso fundamentalista. Foi só quando abandonou os dois extremos e passou a se dedicar a uma vida mais equilibrada e harmoniosa, que pode chegar à Suprema Iluminação.
  2. Outra Margem: Simbolicamente o Mundo da Iluminação, sendo esta margem o Mundo do Sofrimento e da Ignorância.
  3. U.R.S.S.: A extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. (O texto original “Everyday Suchness” foi escrito no ano de 1967).
  4. Prajnaparamita-Sutra: O Sutra da Perfeição da Sabedoria.
  5. Sunyata: (ou shunyata) O conceito do “Vazio Absoluto” ou “Vazio Cósmico”.
  6. Suchness: Não existe em português uma tradução perfeita para o termo em inglês suchness. A expressão que escolhemos para traduzi-lo terá a conotação de qualidade essencial, de qüididade, da essência de uma coisa, do conjunto das condições que determinam um ser particular. Ou, nas palavras de William Gilbert, presidente da Associação Budista Americana, em seu prefácio à edição original deste livro, “O que é suchness? É a coisa tal como ela é e a vida tal como ela é. É a verdade tal como ela é. Suchness é o mundo, vazio de artificialidades ou maquiagens. É o “sonomama” em japonês e o “Tathata” em sânscrito. Uma rosa é uma rosa; um lírio é um lírio; e eu sou eu. Este é o mundo do suchness!” (Nota do tradutor da obra Everyday Suchness para o português).
  7. Samsara: A Roda dos Renascimentos, onde os seres estão aprisionados pelo processo de Ignorância Primordial ao Eterno Devir no Mundo do Sofrimento do Nascimento e Morte.
  8. Nirvana: Literalmente “extinção”. Estado Incondicionado do Ser, atingido através da extinção dos desejos, apegos e paixões mundanas no momento da Iluminação.
  9. Shin-Shû: Abreviação de Jôdo-Shin-Shû (Verdadeira Escola da Terra Pura), também conhecido como Budismo Shin, um dos ramos japoneses do Budismo Mahayana da linhagem da Terra Pura, que tem como base os ensinamentos budistas, assim como foram transmitidos pelo Buda Shakyamuni e mais tarde transmitidos pelos patriarcas da Índia, China e Japão, e amplamente divulgados pelo Mestre Shinran (1173-1262).
  10. Outro Poder: (em japonês: Ta-Riki) O Poder Salvífico do Buda Amida, através da concretização dos seus 48 Votos, dentre os quais se destaca o 18º Voto, também chamado de Voto Original; em contraposição ao Auto Poder (em japonês: Ji-Riki) que representa o poder do ego limitado e sujeito ao nascimento-e-morte.
  11. Hônen Shônin: O Mestre Hônen, também conhecido como Genku (1133-1212) foi o 6º patriarca da transmissão da Doutrina da Terra Pura e fundador do Jôdo-Shû (Escola da Terra Pura) no Japão.
  12. Hongan: “Voto Original” que se refere ao voto feito pelo Buda Amida, ainda em seu estado causal como Bodhisattva Dharmakara (Hôzô Bosatsu) de que todos os seres que nele confiassem a sua fé e recitassem o seu Nome Sagrado através da recitação do Nembutsu (a recitação da fórmula: “Namu-Amida-Butsu”) obteriam um nascimento derradeiro na Terra Pura da Suprema Felicidade (Gokuraku-Jôdo / Sukhavati), estando garantida assim a obtenção Iluminação; e que se isso não acontecesse, que ele também jamais atingisse a Suprema Iluminação.
  13. Grupo de estudo do Budismo, criado nos Estados Unidos pelo autor (Rev. Gyomay Kubose).
  14. Paramita: Virtude ou Perfeição. Normalmente se refere às Seis Práticas Virtuosas que devem ser realizadas por todos aqueles que seguem os ensinamentos de Buda.
  15. Nembutsu: Recitação do Nome Sagrado do Buda Amida, através da fórmula “Namu-Amida-Butsu”.

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