O Templo Higashi Honganji

Situado na cidade de Kyoto, no Japão, é o santuário daqueles que procuram viver através dos verdadeiros ensinamentos de Buda, assim como nos foram transmitidos pelo Venerável Mestre Shinran.

Em seu gênero (construção de madeira) o Templo Higashi Honganji é a maior obra arquitetônica do mundo. É ainda um significativo exemplo de estilo arquitetônico japonês da Era Meiji [1]. Mas, acima de tudo, é um centro espiritual onde as pessoas se reúnem para ouvir a respeito da Verdade.

higashi honganji goendo

O Portal do Templo é uma estrutura monumental provida de telhado duplo, sob o telhado superior há um quadro com a inscrição “Santuário Ôtani da Verdadeira Escola da Terra Pura”. No espaço entre os dois telhados estão entronizadas as imagens do Buda Shakyamuni [2], do Venerável Ananda [3] e do Bodhisattva Maitreya [4] (Miroku-Bosatsu), reproduzindo a cena da pregação do “Grande Sutra da Vida Imensurável” [5].

Quando passamos além das grossas colunas que ladeiam o portal, nos deparamos com a grandiosa estrutura do Pavilhão do Mestre, dotada de telhado duplo, que ocupa todo o nosso campo de visão. O Pavilhão do Mestre mede 64,5m de frente, 46,2m de fundos e 37,4m de altura.

Essa construção e o Pavilhão do Grande Buda do Templo Todaiji de Nara são as duas construções de madeira maiores do mundo. O interior do Pavilhão do Templo Todaiji é todo tomado pela gigantesca estátua de bronze do Buda Rochana, sentado em meditação, que mede 16m de altura.

Já o Pavilhão do Mestre contém apenas uma estátua do Venerável Mestre Shinran de 1m de altura, instalada num relicário que ocupa o “sanctum sanctorum”. O resto do espaço é ocupado por uma ampla nave coberta por 699 “tatamis”, capaz de abrigar cerca de 5.500 pessoas sentadas.

Quem sobe pelas escadarias centrais penetra no vão entre as colunas da varanda e do centro da nave, que é de 13,7m Os suportes das colunas são ricamente decorados e elas foram dispostas de forma a não prejudicar os romeiros em sua circulação e em seus atos devocionais.

O Pavilhão do Mestre comporta milhares de devotos sentados para venerar o ícone sagrado do Mestre Shinran, ouvir seus ensinamentos, expressar sua gratidão e aprofundar sua fé.

Durante a celebração do Rito de Ação de Graças [6] e do Aniversário de Falecimento do Patriarca Shinran, ali se reúnem romeiros do Japão inteiro para venerar e louvar a personalidade do Fundador.

O Pavilhão do Mestre era primitivamente chamado “Pavilhão do Ícone Sagrado”. Em 1879 foi concedido pelo Imperador o título honorífico de “Kenshin-Daishi” (Grande Mestre que Contempla a Verdade) ao Mestre Shinran. Em 1887 o nome do edifício foi mudado para “Pavilhão do Mestre”.

As edificações do templo haviam sido destruídas pelo fogo durante o “Incidente do Portão Hamaguri” de 1864 e nessa época estavam sendo realizados os trabalhos de reconstrução do Pavilhão do Ícone Sagrado e da Grande Nave (Pavilhão de Amida). As obras levaram cerca de 15 anos e só foram terminadas em 1895.

Amida Dô

Grande Portal e o Portal da Grande Nave foram reconstruídos em 1911, por ocasião da Celebração do Aniversário de 650 Anos de Falecimento do Mestre Shinran. Os materiais de construção foram recebidos em oferta ou comprados por todo o país. Muitos operários morreram em acidentes ocorridos em montanhas geladas, ao derrubar árvores para a construção. Tais acidentes eram causados pelo rompimento das cordas empregadas para amarrar os troncos. Entretanto, espalhou-se a idéia de que cordas feitas com cabelo humano seriam mais resistentes do que as cordas comuns. As devotas das províncias de Ecchu, Echigo, Echizen, Ugo, Sanuki, Harima e Bungo fizeram uma campanha de corte de cabelos e ofertaram 53 cordas feitas de cabelo humano. A maior delas mede 110m de comprimento e 40cm de diâmetro.

Até essa época, o Higashi Honganji havia sido por 3 vezes destruído pelo fogo, nos anos de 1788, 1823 e 1858; em cada uma dessas ocasiões a reconstrução do Pavilhão do Mestre foi feita nas dimensões atuais.

O Honganji não passava inicialmente de uma pequena capela hexagonal situada em Ôtani, no sopé da colina Higashiyama, onde estavam depositados os restos mortais de Shinran e se encontrava entronizada sua imagem. Era chamado o Pavilhão do Ícone Sagrado ou simplesmente Mausoléu. A missão de residir no local, cultuar a imagem e zelar pelo pavilhão cabia aos descendentes de Kakushin-ni, filha de Shinran, que doara o terreno para a construção do Mausoléu. Os devotos das províncias do Leste tinham pelos restos mortais e pela imagem do Mestre uma veneração semelhante à que tinham por Shinran quando em vida e não pouparam recursos para garantir a conservação do Mausoléu e a manutenção de seus guardiões, descendentes do Mestre.

O Mestre Kakunyo (1270-1351), bisneto de Shinran, fez do Mausoléu um templo com o nome de Honganji (Templo do Voto Original) e zelou pelo estabelecimento da regra que limitava o cargo de guardião do mesmo e depositário regular da Doutrina aos legítimos descendentes de Shinran.

Na época do Mestre Rennyo (1415-1499), o oitavo patriarca do Honganji, o recinto do Templo englobava o Pavilhão do Ícone Sagrado e o Pavilhão de Amida. Entretanto, o Templo foi destruído pelos monges guerreiros do Monastério Enryakuji.

Mestre Rennyo começou então as atividades missionárias em Ômi (Província de Shiga) e nas províncias do Norte. Estabeleceu ele, o centro de suas atividades na localidade de Yoshizaki, na Província de Echizen (Fukui), transferindo-o depois para Settsu, Kawachi, Izumi (Osaka) e finalmente para Yamashina, em Kyoto, onde erigiu um novo Honganji.

O prodigioso crescimento da comunidade infundiu coragem e confiança aos fiéis e começou a intimidar os demais templos e santuários. Os devotos começaram a lutar com os diferentes líderes políticos e se envolveram nas disputas entre os barões feudais. Durante o período das Guerras Civis, aliou-se o Honganji a barões feudais como Mori, Takeda, e Asahina, acabando por arriscar seu destino num conflito armado com Oda Nobunaga.

O Honganji de Yamashina foi incendiado pelo barão feudal Rokkaku e pelos devotos da Seita do Lótus, durante o pontificado do Patriarca Shônyo. Foi então transferido para Ishiyama, em Osaka.

O conflito com Nobunaga estendeu-se por 11 anos e terminou com um tratado de paz. O Patriarca Kennyo retirou-se de Ishiyama, transferiu o Pavilhão do Ícone Sagrado para Sagimori (Província de Wakayama) e mudou-se para Izumi-Kaizuka.

Depois da morte de Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi ofertou terras ao Honganji, primeiro em Tenman de Osaka e depois em Shichi-jô Horikawa, Kyoto.

Em 1591 foi terminada a transferência do Pavilhão do Ícone Sagrado e do Pavilhão de Amida. No ano seguinte, o Patriarca Kennyo faleceu e foi substituído por seu herdeiro Kyônyo. Entretanto, este sofreu forte oposição e teve de renunciar ao cargo por ordem de Hideyoshi, sendo substituído por seu irmão mais novo Junyo.

Em fevereiro de 1602, Tokugawa Ieyasu ofertou ao Patriarca Kyônyo um terreno em Higashi-Roku-jô, Kyoto. Em janeiro do ano seguinte foi transferida para esse local a imagem de Shinran conservada no Templo Myôanji de Kôzuke-Umayabashi (cidade de Maebashi, Província de Gunma). Em junho, o Patriarca Kyônyo se transferiu para o terreno de Higashi-Roku-jô e iniciou a construção do Pavilhão de Amida; em agosto do ano seguinte foi construído o Pavilhão do Ícone Sagrado, para onde foi transferida a imagem do Mestre Shinran.

Em 1641, o terreno do Templo Higashi Honganji foi ampliado com a anexação de 40.000 m2 do lado leste. No centro desse terreno foi construído o Palácio Residencial dos Patriarcas, o Tôden (Palácio do Leste, futuro Kikoku-tei).

Shôsei-en

O Pavilhão do Ícone Sagrado foi reconstruído em 1658, sendo então ampliado para 63,5m de frente e 45,2m de fundos. O Pavilhão de Amida foi reconstruído em 1670.

No interior do Pavilhão do Mestre, à direita do sanctum sanctorum, está o retrato do Patriarca anterior, à cuja direita está escrito o Sagrado Nome de Seis Letras. À esquerda estão entronizados os retratos de todos os Patriarcas anteriores, o Sagrado Nome de Dez Letras, o Sagrado Nome de Nove Letras e a Biografia Ilustrada do Venerável Mestre Shinran, em 4 rolos que é lida solenemente durante a celebração do Rito de Ação de Graças.

No sanctum sanctorum da Nave Principal está entronizada uma estátua do Buda Amida, em pé, atribuída ao escultor An-Ami. À sua direita está um retrato do Príncipe Regente Shôtoku [7], juntamente com tabuleta memorial do Imperador Kameyama. Do lado esquerdo está o retrato do Mestre Hônen, acompanhado pelos retratos dos demais Patriarcas do Budismo da Terra Pura [6]: Nagarjuna, Vasubandhu, Tan-Luan, Tao-Chao, Chan-Tao e Genshin.

  • [1] Era Meiji: 1868-1912.
  • [2] Buda Shakyamuni: Sidarta Gautama, o Buda histórico, fundador do Budismo, que viveu na Índia aproximadamente no século VI a.C.
  • [3] Venerável Ananda: Primo-irmão do Buda e um dos seus principais discípulos, acompanhou o mestre até o momento de sua morte. Sendo considerado uma pessoa de memória fenomenal, a tradição budista atribui a ele o fato de ter memorizado todas as pregações proferidas pelo Buda e transmitido mais tarde em Concílio aos demais companheiros.
  • [4] Bodhisattva Maitreya: (em japonês: Miroku-Bosatsu) Um dos discípulos do Buda, sobre quem foi profetizado que num futuro distante, quando o Dharma (a Lei) já tiver desaparecido desse mundo, ele se manifestará como um Buda para restituir a Doutrina da Iluminação.
  • [5] Grande Sutra da Vida Imensurável: (em sânscrito: Sukhavati-Vyuha-Sutra / em japonês: Bu’setsu Muryôjû-Kyô) Também conhecido simplesmente como “Grande Sutra” é considerado pelo Mestre Shinran como sendo o mais importante Sutra pregado pelo Buda Shakyamuni, pois nele, estaria exposto de modo claro e objetivo o verdadeiro motivo da manifestação do Buda em nosso mundo. Neste Sutra, Shakyamuni nos transmite os ensinamentos da revelação do Buda Amida (o Buda da Vida e Luz Infinitas) e de seus 48 Votos destinados à salvação de todos os seres, bem como uma descrição do Mundo da Iluminação de forma simbólica e pictórica, como um paraíso conhecido como Terra Pura da Suprema Felicidade. Este Sutra, juntamente com o Sutra da Contemplação da Vida Infinita e o Sutra de Amida, compõem os chamados “Três Sutras da Terra Pura”, que são a base doutrinária do Budismo Shin.
  • [6] Hô-On-Kô: Rito de Ação de Graças em memória do patriarca fundador, o Mestre Shinran, por ocasião do aniversário de seu passamento, é o maior rito do calendário litúrgico do Budismo Shin e é realizado no dia 28 de novembro (e nos dias que o antecedem) de cada ano.
  • [7] Shôtoku-Taishi: É reverenciado pelo Mestre Shinran como sendo a manifestação viva do Bodhisattva Avalokiteshvara (Kanzeon-Bosatsu), por ter sido ele o responsável pela introdução do Budismo no Japão, bem como ter mandado construir o primeiro templo (Hôryûji), e tendo sido ele mesmo um grande exemplo de uma pessoa que tendo se aprofundado nos ensinamentos da Doutrina Budista se tornou admirado por todos e sendo até cultuado popularmente em todo o país. O Príncipe Shôtoku foi também o compilador da primeira constituição nacional do Japão, sendo que esta foi totalmente baseada nos ensinamentos do Buda Shakyamuni. (Ver também: O príncipe Shôtoku e a cultura de sua época; A mais antiga lei escrita do Japão).
  • [8] Sete Patriarcas da Tradição da Terra Pura no Budismo: São os sete grandes mestres que são reverenciados de modo especial pelo Mestre Shinran, pois foram responsáveis pela transmissão da Doutrina da Terra Pura desde a Índia, China e Japão. Na Índia: Nagarjuna (Ryûjû) e Vasubandhu (Tenjin); na China: Tan-Luan (Donran), Tao-Chao (Dôshaku) e Chan-Tao (Zendô); e no Japão: Genshin e Genku (Hônen).