Aprendendo Budismo

By | Budismo básico | No Comments

 

Os dois caminhos do Budismo

É uma grande honra para mim participar desta celebração de Finados (Obon). A palavra Obon vem do termo Ullambana do sânscrito, uma língua antiga da Índia. Ela significa “invertido”, isto é, “de cabeça para baixo”. Vou falar hoje sobre como nós pensamos as coisas de maneira invertida. No Budismo existem dois caminhos. Um deles consiste em fazer severas práticas ascéticas e orar aos Budas pela realização de nossos anseios. Acredito que essa seja a idéia que vocês fazem do Budismo. Entretanto, existe um Budismo com uma postura diferente. É o Budismo que consiste em ouvir o Dharma. Ouvir o Dharma não implica em fazer rigorosos exercícios ascéticos. Nesse tipo de Budismo nós ouvimos pregações búdicas sem nos afastarmos de nossos lares e vamos despertando. Ao invés de praticarmos ascese encerrados em templos nas montanhas, aprendemos a viver recitando o Nembutsu em nossos lares. Tal é esse Budismo. O Budismo da Verdadeira Escola da Terra Pura consiste em aprender o Ensinamento Búdico recitando o Nembutsu em nossos lares. Todos os monges budistas que aqui estão, inclusive eu, não são ascetas. Somos todos budistas que aprendemos como vivera través do Nembutsu.

Acredito que nenhum de vocês poderia abandonar o lar para se entregar a práticas ascéticas em montanhas bravias. Vocês têm sua profissão e sua vida no lar. Assim, é uma grande felicidade vocês estarem relacionados com a Verdadeira Escola da Terra Pura, que permite aprender o Budismo no recesso do lar.

Podemos ser salvos por preces?

Quero discorrer agora sobre o fato das práticas ascéticas e as preces não nos propiciarem a verdadeira paz de espírito. Darei um exemplo. Uma pessoa doente me escreveu uma carta dizendo o seguinte:

“Às vezes eu acho que o Buda é parcial. Isso porque, de um lado temos pessoas como eu, sofrendo há várias dezenas de anos por causa de uma doença atroz, ao passo que do outro lado temos pessoas que vivem alegremente. Por mais que eu ore, não saro de minha doença. Em volta de mim, porém, vejo muitas pessoas saudáveis. O Buda não será mesmo parcial? O Sr.que é um estudioso do Budismo, responda, por favor, a esta minha indagação.”

O que vocês acham? Podemos curar doenças com preces? Há pessoas que oram para ganhar dinheiro. Será que as orações fazem as pessoas ganharem dinheiro? Há pessoas que oram para não morrerem. Será que as orações podem tornar alguém imortal? Enquanto pensarmos dessa forma permaneceremos sempre sofrendo, com o coração tomado por esses anseios. Se pudéssemos obter curas apenas em troca de um simples donativo a um templo, não precisaríamos mais de médicos. Há pessoas que acham que o Budismo consiste em tais ensinamentos mas isso não é o Budismo autêntico. Isso não passa de uma manipulação do Budismo que visa a satisfação de nossas ambições.

Então, minha gente, será verdade que preces podem curar doenças e proporcionar dinheiro? Façam de conta que vocês acabaram de ganhar na loteria. O que vocês pensam numa hora dessas? Certamente ficam querendo ganhar mais dinheiro ainda numa próxima oportunidade. E depois, hão de querer mais ainda. Em suma, seus corações estarão para sempre prisioneiros do desejo de ganhar cada vez mais. Enquanto pensarem dessa forma, não terão, pois, a paz de espírito. Vocês estarão se atormentando a si próprios. Geralmente o sofrimento é um tormento que nós nos infligimos a nós mesmos. Nós nos atormentamos com nossos próprios pensamentos. Assim, no Japão, a luta por uma vaga no vestibular é uma verdadeira guerra que aflige os jovens. Acredito que no Brasil também ocorra algo semelhante. No Japão, os vestibulandos varam a madrugada estudando como loucos. Assim, tornam-se bons estudantes mas sua personalidade fica algo deformada. Eles se atormentam a si próprios obcecados pela vontade de alcançarem bons resultados na escola.

Aprendendo com a verdade

Há pouco, na nave do Templo, foi recitado o “Sutra de Amida” (Amida-Kyo). Nesse Sutra está escrito que se recitarmos o Nembutsu com afinco durante um, dois, três ou sete dias, nossos desejos não serão realizados. O que vai acontecer é justamente o contrário. Não devemos rezar mas sim observar cuidadosamente a realidade. Enquanto que, julgando-nos vítimas de algum poder parcial, ficamos orando aqui e acolá pela cura de nossa doença, esta vai piorando cada vez mais. Quanto mais orarmos, achando que a saúde é a condição normal e lamentando nossa condição de doentes, mais iremos sofre. É exatamente o contrário. Se soubermos encarar a realidade, verificaremos que o normal é que nosso corpo carnal seja sujeito à doença. Nosso corpo carnal tem fases de doença e fases de saúde. Só quando encararmos a doença como um fato natural estaremos em condições de encarar o médico. Em outras palavras, trata-se de assumir a doença.

Nós consideramos a juventude como boa e a velhice como ruim. Oramos para permanecer sempre jovens. Entretanto, o que vocês acham? Pode uma pessoa de 60 anos permanecer como se ela tivesse apenas 20 anos? Não seria isso esquisito? O envelhecimento é um fato normal. Se a pessoa conseguir encarar a realidade de estar ficando com a pele enrugada e com os cabelos brancos estará assumindo seu envelhecimento. Com a morte ocorre o mesmo. Não adianta ficar rezando para ter uma vida longa ou para não morrer. Enquanto ficarmos nessa atitude, encarar a morte será um sofrimento. O contrário é que é verdadeiro. Quando o momento chegar, certamente morreremos. Encarando a morte como algo normal estaremos em condições de aceitar a própria morte. Aí está a verdadeira paz de espírito. Assim, a salvação do Budismo não consiste em buscar a resolução da dor através de milagres mas sim em obter a coragem de assumir a dor através da observação da realidade. Tal é a salvação no Budismo.

Na vida do lar enfrentamos vários acontecimentos, muitos deles dolorosos. Temos, por exemplo, divergências de opinião entre a vovó e o filho ou entre o vovô e a nora. Há muita complicação na vida familiar. Pensando bem, sofre-se por causa de um choque de caprichos. Observando bem a realidade, as pessoas poderão admitir isso e cederem em suas posições.

O que é Buda?

O Budismo é a Doutrina que nos permite observar nossos pensamentos e atitudes equivocadas à luz do Dharma ou da Lei Búdica. Nós sempre achamos que estamos certos. Nós somos auto-indulgentes. Entretanto, à luz das leis que regem a realidade somos levados a perceber nossa postura errônea. Essas leis que regem o real, são denominadas Dharma. O Dharma não tem cor nem forma. O Buda também não tem cor nem forma. O Budismo não é uma idolatria. Entretanto, sendo difícil perceber algo que não tem cor nem forma, admitem-se as estátuas de Buda como representações provisórias. Os meios usados para indicar aquilo que não tem cor ou forma são, no Budismo, denominados upaya (hábeis meios salvíficos). À luz dessa realidade sem cor ou forma percebemos quão equivocados e arbitrários são nossos pensamentos. A operação que assim nos esclarece é a operação búdica.

Vocês podem estar estranhando a existência de algo sem cor ou forma. Quando dou aulas de Budismo na Universidade, os estudantes novatos me interpelam – Como podemos saber se o Buda existe ou não, se ele não tem cor ou forma? – O Buda existe ou não? O que vocês acham? Acredito que vocês pensam que algo sem cor ou forma não possa existir.

Entretanto, darei um exemplo de algo que existe ser ter cor ou forma. É o vento que agita as árvores. O vento não tem cor, nem forma e nem cheiro. Às vezes ele nos traz cheiros gostosos mas não são dele. Ele apenas os transporta. O vento não tem cor ou forma mas nós normalmente falamos de seguinte maneira: tem vento ou não? Hoje tem vento ou não. Parece que não tem muito. Então, por que discutimos se algo sem cor ou forma existe ou não? Em que nos baseamos para dizer se algo assim existe ou não? Em suma, nós sabemos se há ou não vento através da atividade do mesmo. Se os galhos estão balançando e fazem ruído, se um papel está sendo agitado nós sabemos que há vento. Assim, admitimos a existência do vento através das operações do mesmo.

O mesmo ocorre com o Buda. Sabemos da existência do mesmo através de suas operações. A operação búdica é aquela que nos esclarece, ou então aquela que nos vivifica e sustenta.

Por mais que queiramos, não podemos nos observar a nós mesmos. Quando eu era pequeno, meu professor me mandava me observar a mim mesmo e refletir. Entretanto, sempre que eu refletia tinha pensamentos de auto-indulgência:

— Por que o professor só fica bravo comigo, se todos nós é que fazemos juntos coisas erradas? A verdade é que somos auto-indulgentes e só nos observamos a partir de um prisma favorável a nós mesmos. Não podemos nos encarar a nós mesmos como somos na realidade. Só podemos nos questionar quando nos vemos iluminados por uma luz que nos transcende. Assim, podemos tomar consciência de nossos erros quando asperamente repreendidos por alguém cuja posição transcende nossos interesses. Até mesmo no lar existem muitas coisas que assim chamam nossa atenção. Podemos assim nos defrontar com coisas que transcendem nossa posição.

Aprendendo com tudo

Um professor que eu respeito muito costumava agradecer aos panos de limpeza por eles se sujarem para limparem as coisas. Ele aprendia a viver com os panos de limpeza. Às vezes aprendemos também com as crianças. O egoísmo nos faz pensa que os filhos são nossos e que somos nós que os educamos. Certa vez, em minha casa aconteceu o seguinte: Na hora do jantar, minha filha, aluna da escola primária disse:

— Amanhã a professora virá, é preciso limpar a entrada da casa e a sala de visitas.

Em suma, tratava-se de limpar apenas a entrada da casa e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira estava limpa. O mundo infantil já é bem diferente. Minha filha sempre convida as amiguinhas para brincar em casa. Ela abre então o seu quarto e expõe todos os seus brinquedos mais queridos para brincarem juntas. No mundo infantil não existe frente e verso. As crianças mostram tudo. Já nós adultos limpamos só a entrada e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira está limpa. Assim, minha filha me dá lições. Da perspectiva egoísta de que os filhos são nossos, não é possível perceber nada. Entretanto, à luz de um prisma que transcende o ego, podemos receber lições de nossos próprios filhos.

Alguns aprendem com as flores de cerejeira. Observando que algumas caem enquanto outras permanecem na árvore, pode alguém aprender sobre sua vida e sobre a sua morte. A observação das flores de cerejeira pode eliminar o sentimento errôneo de que só os outros morrem, eu não.

Certa vez, um paciente de câncer aprendeu algo interessante. Ele disse que quando adoeceu e se internou, o mundo tinha um aspecto prosaico e banal. Entretanto, quando, depois de operado, ele se preparava para deixar o hospital, parecia-lhe que as árvores brilhavam. Até o mato que brotava das fendas do asfalto, à beira do caminho, parecia belo e gracioso. Enfim, operando-se de câncer, ele havia se defrontado com a morte. Depois disso, até o mato parecia gracioso. Em suma, sua situação lhe mostrou o fato dele ser vivificado.

Assim, poderemos perceber que todas as coisas atuam sobre nós mesmos. Entretanto, aquele que se sente como o certo e o perfeito não percebe essas possibilidades de aprendizado. Aquele que tem o pensamento centrado em si mesmo, julgando-se certo e perfeito, é, do ponto de vista budista, um prisioneiro do ego. A contemplação da realidade nos faz tomar consciência de nosso ego. O ego é sofrimento só seu questionamento permite transcender o sofrimento. As diferentes operações que nos fazem tomar consciência de nosso ego são operações búdicas.

O que é o Namu Amida Butsu?

O “Sutra de Amida” que eu citei há pouco nos diz que em torno de nós estão incontáveis Budas, tão numerosos como os grão de areia no fundo do rio Ganges na Índia. No leste, no sul, no oeste e no norte, no zênite e no nadir, em todas as direções estão incontáveis Budas atuando sobre nós, para que nós despertemos, ensina o Sutra. O Buda é aquele que nos faz despertar e aprender. Seu nome é Amida. A frase Namu Amida Butsu expressa nosso ato de reverência para com ele. Namu significa prestar reverência. Prestar reverência a aquilo que nos ensina e nos vivifica, eis a postura de vida própria de um budista.Vocês prestam reverencia de mãos postas. Prestar reverência não pode nem deve ser uma prece em que pedimos ao Buda a satisfação de nossos desejos egoístas. Prestar reverência significa perceber a atuação búdica e aprender humildemente com ela.

O termo Namu, de origem sânscrita, tem o sentido de contemplar reverentemente algo, de cabeça baixa. Não significa baixar deliberadamente a cabeça. É a cabeça que espontaneamente se inclina com respeito.

Assim, Namu Amida Butsu significa contemplar respeitosamente algo que nos transcende e nos ilumina. Gostaria que vocês recitassem o Namu Amida Butsu com as mãos postas tendo em mente esse significado. O Namu Amida Butsu não é uma prece cuja eficácia depende do número de recitações para produzir bons efeitos nem é uma fórmula mágica. Recitem-na em qualquer momento, em sinal de reverência para com algo que os ilumine. Falei a vocês com o objetivo de transmitir o ensinamento da Verdadeira Escola da Terá Pura da maneira mais fácil possível. Não sei se consegui. Se tiverem dúvidas, consultem os missionários.

Estou voltando hoje para o Japão. Sinto-me muito emocionado pelo fato de pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão, no mundo inteiro, enfim, estarem questionando sua maneira de viver à luz do Namu Amida Butsu. Encerro esta fala tornando pública minha gratidão por ter podido lhes falar neste significativo dia de Obon.

Texto por Reverendo Shuko Tashiro
Tradução do Reverendo Ricardo Mário Gonçalves

Reflexão para o Obon – Aprendendo o budismo

By | Reflexões budistas | No Comments

Os dois caminhos do Budismo

É uma grande honra para mim participar desta celebração de Finados (Obon). A palavra Obon vem do termo Ullambana do sânscrito, uma língua antiga da Índia. Ela significa “invertido”, isto é, “de cabeça para baixo”. Vou falar hoje sobre como nós pensamos as coisas de maneira invertida. No Budismo existem dois caminhos. Um deles consiste em fazer severas práticas ascéticas e orar aos Budas pela realização de nossos anseios. Acredito que essa seja a idéia que vocês fazem do Budismo. Entretanto, existe um Budismo com uma postura diferente. É o Budismo que consiste em ouvir o Dharma. Ouvir o Dharma não implica em fazer rigorosos exercícios ascéticos. Nesse tipo de Budismo nós ouvimos pregações búdicas sem nos afastarmos de nossos lares e vamos despertando. Ao invés de praticarmos ascese encerrados em templos nas montanhas, aprendemos a viver recitando o Nembutsu em nossos lares. Tal é esse Budismo. O Budismo da Verdadeira Escola da Terra Pura consiste em aprender o Ensinamento Búdico recitando o Nembutsu em nossos lares. Todos os monges budistas que aqui estão, inclusive eu, não são ascetas. Somos todos budistas que aprendemos como vivera través do Nembutsu.

Acredito que nenhum de vocês poderia abandonar o lar para se entregar a práticas ascéticas em montanhas bravias. Vocês têm sua profissão e sua vida no lar. Assim, é uma grande felicidade vocês estarem relacionados com a Verdadeira Escola da Terra Pura, que permite aprender o Budismo no recesso do lar.

Podemos ser salvos por preces?

Quero discorrer agora sobre o fato das práticas ascéticas e as preces não nos propiciarem a verdadeira paz de espírito. Darei um exemplo. Uma pessoa doente me escreveu uma carta dizendo o seguinte:

“Às vezes eu acho que o Buda é parcial. Isso porque, de um lado temos pessoas como eu, sofrendo há várias dezenas de anos por causa de uma doença atroz, ao passo que do outro lado temos pessoas que vivem alegremente. Por mais que eu ore, não saro de minha doença. Em volta de mim, porém, vejo muitas pessoas saudáveis. O Buda não será mesmo parcial? O Sr.que é um estudioso do Budismo, responda, por favor, a esta minha indagação.”

O que vocês acham? Podemos curar doenças com preces? Há pessoas que oram para ganhar dinheiro. Será que as orações fazem as pessoas ganharem dinheiro? Há pessoas que oram para não morrerem. Será que as orações podem tornar alguém imortal? Enquanto pensarmos dessa forma permaneceremos sempre sofrendo, com o coração tomado por esses anseios. Se pudéssemos obter curas apenas em troca de um simples donativo a um templo, não precisaríamos mais de médicos. Há pessoas que acham que o Budismo consiste em tais ensinamentos mas isso não é o Budismo autêntico. Isso não passa de uma manipulação do Budismo que visa a satisfação de nossas ambições.

Então, minha gente, será verdade que preces podem curar doenças e proporcionar dinheiro? Façam de conta que vocês acabaram de ganhar na loteria. O que vocês pensam numa hora dessas? Certamente ficam querendo ganhar mais dinheiro ainda numa próxima oportunidade. E depois, hão de querer mais ainda. Em suma, seus corações estarão para sempre prisioneiros do desejo de ganhar cada vez mais. Enquanto pensarem dessa forma, não terão, pois, a paz de espírito. Vocês estarão se atormentando a si próprios. Geralmente o sofrimento é um tormento que nós nos infligimos a nós mesmos. Nós nos atormentamos com nossos próprios pensamentos. Assim, no Japão, a luta por uma vaga no vestibular é uma verdadeira guerra que aflige os jovens. Acredito que no Brasil também ocorra algo semelhante. No Japão, os vestibulandos varam a madrugada estudando como loucos. Assim, tornam-se bons estudantes mas sua personalidade fica algo deformada. Eles se atormentam a si próprios obcecados pela vontade de alcançarem bons resultados na escola.

Aprendendo com a verdade

Há pouco, na nave do Templo, foi recitado o “Sutra de Amida” (Amida-Kyo). Nesse Sutra está escrito que se recitarmos o Nembutsu com afinco durante um, dois, três ou sete dias, nossos desejos não serão realizados. O que vai acontecer é justamente o contrário. Não devemos rezar mas sim observar cuidadosamente a realidade. Enquanto que, julgando-nos vítimas de algum poder parcial, ficamos orando aqui e acolá pela cura de nossa doença, esta vai piorando cada vez mais. Quanto mais orarmos, achando que a saúde é a condição normal e lamentando nossa condição de doentes, mais iremos sofre. É exatamente o contrário. Se soubermos encarar a realidade, verificaremos que o normal é que nosso corpo carnal seja sujeito à doença. Nosso corpo carnal tem fases de doença e fases de saúde. Só quando encararmos a doença como um fato natural estaremos em condições de encarar o médico. Em outras palavras, trata-se de assumir a doença.

Nós consideramos a juventude como boa e a velhice como ruim. Oramos para permanecer sempre jovens. Entretanto, o que vocês acham? Pode uma pessoa de 60 anos permanecer como se ela tivesse apenas 20 anos? Não seria isso esquisito? O envelhecimento é um fato normal. Se a pessoa conseguir encarar a realidade de estar ficando com a pele enrugada e com os cabelos brancos estará assumindo seu envelhecimento. Com a morte ocorre o mesmo. Não adianta ficar rezando para ter uma vida longa ou para não morrer. Enquanto ficarmos nessa atitude, encarar a morte será um sofrimento. O contrário é que é verdadeiro. Quando o momento chegar, certamente morreremos. Encarando a morte como algo normal estaremos em condições de aceitar a própria morte. Aí está a verdadeira paz de espírito. Assim, a salvação do Budismo não consiste em buscar a resolução da dor através de milagres mas sim em obter a coragem de assumir a dor através da observação da realidade. Tal é a salvação no Budismo.

Na vida do lar enfrentamos vários acontecimentos, muitos deles dolorosos. Temos, por exemplo, divergências de opinião entre a vovó e o filho ou entre o vovô e a nora. Há muita complicação na vida familiar. Pensando bem, sofre-se por causa de um choque de caprichos. Observando bem a realidade, as pessoas poderão admitir isso e cederem em suas posições.

O que é Buda?

O Budismo é a Doutrina que nos permite observar nossos pensamentos e atitudes equivocadas à luz do Dharma ou da Lei Búdica. Nós sempre achamos que estamos certos. Nós somos auto-indulgentes. Entretanto, à luz das leis que regem a realidade somos levados a perceber nossa postura errônea. Essas leis que regem o real, são denominadas Dharma. O Dharma não tem cor nem forma. O Buda também não tem cor nem forma. O Budismo não é uma idolatria. Entretanto, sendo difícil perceber algo que não tem cor nem forma, admitem-se as estátuas de Buda como representações provisórias. Os meios usados para indicar aquilo que não tem cor ou forma são, no Budismo, denominados upaya (hábeis meios salvíficos). À luz dessa realidade sem cor ou forma percebemos quão equivocados e arbitrários são nossos pensamentos. A operação que assim nos esclarece é a operação búdica.

Vocês podem estar estranhando a existência de algo sem cor ou forma. Quando dou aulas de Budismo na Universidade, os estudantes novatos me interpelam – Como podemos saber se o Buda existe ou não, se ele não tem cor ou forma? – O Buda existe ou não? O que vocês acham? Acredito que vocês pensam que algo sem cor ou forma não possa existir.

Entretanto, darei um exemplo de algo que existe ser ter cor ou forma. É o vento que agita as árvores. O vento não tem cor, nem forma e nem cheiro. Às vezes ele nos traz cheiros gostosos mas não são dele. Ele apenas os transporta. O vento não tem cor ou forma mas nós normalmente falamos de seguinte maneira: tem vento ou não? Hoje tem vento ou não. Parece que não tem muito. Então, por que discutimos se algo sem cor ou forma existe ou não? Em que nos baseamos para dizer se algo assim existe ou não? Em suma, nós sabemos se há ou não vento através da atividade do mesmo. Se os galhos estão balançando e fazem ruído, se um papel está sendo agitado nós sabemos que há vento. Assim, admitimos a existência do vento através das operações do mesmo.

O mesmo ocorre com o Buda. Sabemos da existência do mesmo através de suas operações. A operação búdica é aquela que nos esclarece, ou então aquela que nos vivifica e sustenta.

Por mais que queiramos, não podemos nos observar a nós mesmos. Quando eu era pequeno, meu professor me mandava me observar a mim mesmo e refletir. Entretanto, sempre que eu refletia tinha pensamentos de auto-indulgência:

— Por que o professor só fica bravo comigo, se todos nós é que fazemos juntos coisas erradas? A verdade é que somos auto-indulgentes e só nos observamos a partir de um prisma favorável a nós mesmos. Não podemos nos encarar a nós mesmos como somos na realidade. Só podemos nos questionar quando nos vemos iluminados por uma luz que nos transcende. Assim, podemos tomar consciência de nossos erros quando asperamente repreendidos por alguém cuja posição transcende nossos interesses. Até mesmo no lar existem muitas coisas que assim chamam nossa atenção. Podemos assim nos defrontar com coisas que transcendem nossa posição.

Aprendendo com tudo

Um professor que eu respeito muito costumava agradecer aos panos de limpeza por eles se sujarem para limparem as coisas. Ele aprendia a viver com os panos de limpeza. Às vezes aprendemos também com as crianças. O egoísmo nos faz pensa que os filhos são nossos e que somos nós que os educamos. Certa vez, em minha casa aconteceu o seguinte: Na hora do jantar, minha filha, aluna da escola primária disse:

— Amanhã a professora virá, é preciso limpar a entrada da casa e a sala de visitas.

Em suma, tratava-se de limpar apenas a entrada da casa e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira estava limpa. O mundo infantil já é bem diferente. Minha filha sempre convida as amiguinhas para brincar em casa. Ela abre então o seu quarto e expõe todos os seus brinquedos mais queridos para brincarem juntas. No mundo infantil não existe frente e verso. As crianças mostram tudo. Já nós adultos limpamos só a entrada e a sala de visitas para dar a impressão de que a casa inteira está limpa. Assim, minha filha me dá lições. Da perspectiva egoísta de que os filhos são nossos, não é possível perceber nada. Entretanto, à luz de um prisma que transcende o ego, podemos receber lições de nossos próprios filhos.

Alguns aprendem com as flores de cerejeira. Observando que algumas caem enquanto outras permanecem na árvore, pode alguém aprender sobre sua vida e sobre a sua morte. A observação das flores de cerejeira pode eliminar o sentimento errôneo de que só os outros morrem, eu não.

Certa vez, um paciente de câncer aprendeu algo interessante. Ele disse que quando adoeceu e se internou, o mundo tinha um aspecto prosaico e banal. Entretanto, quando, depois de operado, ele se preparava para deixar o hospital, parecia-lhe que as árvores brilhavam. Até o mato que brotava das fendas do asfalto, à beira do caminho, parecia belo e gracioso. Enfim, operando-se de câncer, ele havia se defrontado com a morte. Depois disso, até o mato parecia gracioso. Em suma, sua situação lhe mostrou o fato dele ser vivificado.

Assim, poderemos perceber que todas as coisas atuam sobre nós mesmos. Entretanto, aquele que se sente como o certo e o perfeito não percebe essas possibilidades de aprendizado. Aquele que tem o pensamento centrado em si mesmo, julgando-se certo e perfeito, é, do ponto de vista budista, um prisioneiro do ego. A contemplação da realidade nos faz tomar consciência de nosso ego. O ego é sofrimento só seu questionamento permite transcender o sofrimento. As diferentes operações que nos fazem tomar consciência de nosso ego são operações búdicas.

O que é o Namu Amida Butsu?

O “Sutra de Amida” que eu citei há pouco nos diz que em torno de nós estão incontáveis Budas, tão numerosos como os grão de areia no fundo do rio Ganges na Índia. No leste, no sul, no oeste e no norte, no zênite e no nadir, em todas as direções estão incontáveis Budas atuando sobre nós, para que nós despertemos, ensina o Sutra. O Buda é aquele que nos faz despertar e aprender. Seu nome é Amida. A frase Namu Amida Butsu expressa nosso ato de reverência para com ele. Namu significa prestar reverência. Prestar reverência a aquilo que nos ensina e nos vivifica, eis a postura de vida própria de um budista.Vocês prestam reverencia de mãos postas. Prestar reverência não pode nem deve ser uma prece em que pedimos ao Buda a satisfação de nossos desejos egoístas. Prestar reverência significa perceber a atuação búdica e aprender humildemente com ela.

O termo Namu, de origem sânscrita, tem o sentido de contemplar reverentemente algo, de cabeça baixa. Não significa baixar deliberadamente a cabeça. É a cabeça que espontaneamente se inclina com respeito.

Assim, Namu Amida Butsu significa contemplar respeitosamente algo que nos transcende e nos ilumina. Gostaria que vocês recitassem o Namu Amida Butsu com as mãos postas tendo em mente esse significado. O Namu Amida Butsu não é uma prece cuja eficácia depende do número de recitações para produzir bons efeitos nem é uma fórmula mágica. Recitem-na em qualquer momento, em sinal de reverência para com algo que os ilumine. Falei a vocês com o objetivo de transmitir o ensinamento da Verdadeira Escola da Terá Pura da maneira mais fácil possível. Não sei se consegui. Se tiverem dúvidas, consultem os missionários.

Estou voltando hoje para o Japão. Sinto-me muito emocionado pelo fato de pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão, no mundo inteiro, enfim, estarem questionando sua maneira de viver à luz do Namu Amida Butsu. Encerro esta fala tornando pública minha gratidão por ter podido lhes falar neste significativo dia de Obon.

Obrigado.
Texto original por Reverendo Shuko Tashiro
Tradução do Reverendo Ricardo Mário Gonçalves

Reflexão para o Ohigan – A Não Dicotomização

By | Reflexões budistas | No Comments

Duas vezes por ano, celebramos o Ohigan. Em termos de astronomia, é no dia do Ohigan que o Sol se ergue diretamente no leste e se põe diretamente no oeste. Desse modo, a duração do dia e da noite são iguais. O Ohigan também representa uma estação nem demasiado quente nem demasiado fria, assim simbolizando o Caminho do Meio [1] do Budismo. Durante muitos séculos, a semana do equinócio (igual duração do dia e da noite) foi escolhida como a Semana do Ohigan, dando-nos a oportunidade de nos reunir no templo, ouvir palestras, prestar algum serviço social, celebrar serviços em memória dos nossos entes queridos falecidos e expressar-lhes nossa gratidão, e, em suma, dar-nos tempo para a auto-reflexão — quem sou eu, qual é a verdade das coisas. Penso que essa é a importância da época do Ohigan e de seus rituais.

Ohigan é uma palavra japonesa: o O é um título honorífico e Higan significa “a outra margem” [2].

Mas, na verdade, Higan é uma abreviação de Tôhigan, onde Tô significa “atravessar” e como Higan quer dizer “A Outra Margem”, Tôhigan que dizer “atravessar para a outra margem”. Tô é a parte mais significativa da para palavra Tôhigan. Higan, a menos que sejamos muito cautelosos, torna-se um conceito. Mas Tô (atravessar, ir) não é um conceito; é a experiência, é a vivência. Desse modo, o importante é atravessar para a outra margem, e eu gostaria de enfatizar mais o Tô do que o Higan. Ele dizer viver o dia-a-dia. O destino, a meta, o fim, o Higan, acaba por ser alcançado se você dá cada passo no caminho perfeito. Se os meios são perfeitos, é natural que alcancemos o objetivo perfeito. Assim, os meios são mais importantes que o objetivo. Eu não deveria dizer “mais importantes”, pois isso divide os meios e os fins em duas coisas, enquanto que os meios são fins e os fins são os meios. Sabendo-se isso, a palavra Higan torna-se perfeitamente compreensível sem o acréscimo do verbo Tô. Atravessar é a outra margem.

Já que a época do Higan é um momento para a auto-reflexão, eu gostaria de falar sobre o ego. Parece que no chamado “mundo livre”, os países do Ocidente, nossa civilização e cultura são o auge do desenvolvimento do ego. Nossa ciência política, educação, economia, etc. estão todas voltadas para o desenvolvimento do ego, da personalidade individual. Parece-nos lógico e legítimo respeitar o indivíduo, reconhecer a dignidade do indivíduo. Mas temos uma forte inclinação a apoiar, desenvolver, expandir e afirmar o eu. (A palavra “eu” — o self, o si-mesmo — parece indicar o indivíduo sem dar-lhe a conotação de egoísmo, enquanto que “ego” conota o egoísmo; no entanto, em essência, “eu”, “ego” ou “identidade individual” talvez sejam a mesma coisa.) Afirmamos nosso ego. “Eu tenho o direito, você não tem o direito de pôr-se em meu caminho”. Nosso conceito de liberdade significa esse desenvolvimento do ego. Nós, os norte-americanos, falamos em liberdade. Ao declarar a liberdade, oprimimos os outros. O mesmo acontece com os russos. Ao declarar seu ideal, o comunismo, eles oprimem os outros. Seja a América livre ou a U.R.S.S. [3] comunista, ambas estão desenvolvendo ou promovendo o ego. Toda a nossa civilização é essa promoção do ego, a expansão e desenvolvimento do ego.

O pensamento de Hegel, filósofo alemão, consistia no reconhecimento de tudo, na aceitação de tudo; isso está certo, aquilo está certo, aceite isso, aceite aquilo. Os componentes da dialética de Hegel são: a tese, a antítese e a síntese. A tese é a realidade da situação presente. O elemento novo, que vem se opor à tese, é a antítese. Unidas, a tese e a antítese formam a síntese. Este seria o processo da vida. Este seria o processo do estado da sociedade. Este seria o processo do progresso. O pensamento de Hegel não nega coisa alguma. Tudo é aceito e tudo se desenvolve por si mesmo no processo dialético de tese, antítese e síntese.

Já o pensamento do dinamarquês Kierkegaard, por outro lado, consistia em selecionar uma coisa e negar todas as outras. Esta é a base de seu existencialismo: tomar uma certa coisa, afirmá-la e negar as outras. Hegel e Kierkegaard representam dois sistemas de vida. Kierkegaard negava tudo, mas afirmava a existência de Deus. O mesmo ocorria com Kant. Immanuel Kant, o mais importante filósofo da Alemanha, nega todas as coisas em sua “Crítica da Razão Pura”. No entanto, ao afirmar a razão prática, acaba afirmando Deus.

Carlyle, filósofo inglês conhecido por seu característico modo de vida, disse que a completa negação é a completa afirmação. Isto parece muito próximo do caminho ensinado por Buda. E também Kitaro Nishida, o notável filósofo do Japão moderno, apresentou a mesma perspectiva de compreensão: a completa negação é a completa afirmação.

No Budismo, especialmente no Prajnaparamita-Sutra [4], ensina-se o não-ego. Com muita freqüência, o termo sunyata [5]— o vazio, o nada, o suchness [6] (a coisa tal como ela é) — indica a completa negação, a essência do nada. No Prajnaparamita-Sutra, a própria negação também é negada. Se existe alguma coisa afirmativa além da negação, não há negação. Assim, no Prajnaparamita-Sutra, a negação também é negada. No meu entender, essa atitude da negação é muito importante. No Ocidente, todas as coisas seguem o caminho da afirmação, enquanto que, no Oriente, o modo geral de expressão e compreensão é através da negação. A afirmação limita a si mesma. Só através da negação poderá a verdade absoluta ou total ser expressa.

Estamos muito habituados a isso no Ocidente: não queremos ser negativos, não queremos ser passivos; queremos sempre ser agressivos, positivos, ativos e dinâmicos. No Oriente, a atitude é mais passiva, mais negativa e mais estática; porém, essa qualidade estática ou negatividade, não está relacionada com a positividade ou afirmação. A negação oriental ou budista é que a própria negação é negada.

Kierkegaard e Kant negaram todas as coisas com a única exceção de terem afirmado Deus. Negar todas as coisas e afirmar uma coisa, não é negação no sentido budista. O caminho budista é que a negação também é negada. Nada é afirmado, mas tudo é negado. A verdadeira afirmação é que não existe nenhuma afirmação. A transformação contínua é a permanência. Samsara [7] é Nirvana [8]; Nirvana é Samsara. O fluxo contínuo de água é o rio. Dizer que a completa negação é a completa afirmação é dizer que a própria transformação contínua é a permanência.

O Shin-Shû [9] ensina o “Outro-Poder” [10], negando o eu e confiando no “Outro-Poder”. Este é um modo muito perigoso de compreensão: negar o eu e procurar o “Outro-Poder”. Não, não se trata de duas coisas. Não existe nenhum outro poder além deste eu. A própria negação do eu é o outro poder.

Muitas pessoas compreendem isto como negar ou rejeitar o eu e então procurar o outro poder. Negar o eu e depender do outro poder, isso é dualístico. Não é este tipo de negação, mas sim a própria negação que é a afirmação. Quando o eu se extingue, existe o outro poder. Sem extinguir o eu, não existe o outro poder. A extinção é o outro poder. A negação não é comparada com a afirmação, nem oposta a ela. O não-ego, o não-eu ou o “nada” não é comparado ou oposto a alguma coisa que existe. Higan — a outra margem — não está do lado de lá em comparação com o lado de cá; Higan está aqui. Quando esse eu se extingue, existe o Verdadeiro Eu. Higan, é claro, não é um lugar geográfico específico, um ali, uma outra margem; Higan tampouco é um mundo conceitual contraposto a este mundo. Nesta vida, quando transcendemos o ego, o próprio transcender é o não-eu.

Falamos sobre a unidade, a unidade de duas coisas. Essa não é a verdadeira unidade. Por exemplo, considera-se que marido e esposa estão unidos em uma única vida harmoniosa. Este é o conceito geral de unidade no Ocidente — a esposa enquanto indivíduo e o marido enquanto indivíduo, estão unidos numa unidade, num ser único. Mas a unicidade budista não este tipo de unicidade. Quando o marido extingue seu ego (o próprio marido) ou quando a esposa extingue seu ego (a própria esposa), quando tudo se extingue, existe unicidade. Unicidade não é unir em um só. Mas quando tudo se extingue no nada, isso é unicidade. Não unir, mas extinguir. A completa negação é a completa afirmação.

Nossa tendência é dicotomizar todas as coisas, e então tentar construir unidade e harmonia entre as duas metades. Não existe harmonia quando você põe duas coisas juntas. Somente quanto extinguir a si mesmo é que você se encontrará. Esta é a compreensão básica do Budismo: Sunyata, o “nada”, a “coisa como ela é”. Há uma expressão japonesa “Jiriki-wo suteru”: “Lance fora o auto-poder” (o poder do eu). O próprio ato de extinguir o poder do eu é o outro poder.

Na expressão budista, também há dois modos de olharmos as coisas. (É claro que vivemos neste mundo espacial; vivemos no mundo temporal; e, assim, temos de ver as coisas de um modo relativo. Mas essa relação não é a verdade.) Como eu dizia, o Budismo tem dois modos de compreender as coisas. Um deles é o modo de Hegel — aceitar todas as coisas. A isto chamamos shoju, querendo dizer que nada é lançado fora, tudo é bom, tudo é belo e valioso, tudo tem seu lugar e por isso aceitamos todas as coisas e não negamos nada. Isto também é chamado shoju-mon — o portal de shoju — que significa deixar entrar todas as coisas.

O segundo modo que os budistas têm para compreender as coisas é o shaku-buku. O portal do shaku-buku é o de escolher uma coisa e negar todas as outras. Hônen Shônin [11], o mestre de Shinran, afirmou o “Senjaku-Hongan”, o que significa aceitar o Hongan [12] e rejeitar todas as outras coisas. Esse “Senjaku-Hongan” — ou escolher o Hongan (geralmente traduzido como “Voto Original”, o que talvez não transmita seu real sentido) — significa escolher a verdadeira vida e negar as demais. Dizer isso parece dualístico. Mas, escolher apenas o verdadeiro é, em si, negar o falso; trata-se de uma coisa, não de duas. A escolha do verdadeiro é a negação do falso. Honestidade que dizer que não existe mentira. Você não abandona a mentira e estabelece a verdade. Não, não é isso. É uma unicidade simultânea.

É por isso que um é muitos e muitos são um, como se diz no Budismo. Eu sou todos e todos são eu. No meu entender, esse mundo indiviso, não-dualístico, não-egóico, é Higan. Quando examino a mim mesmo, vejo que estou cheio de ego. Todos os problemas, misérias, infelicidade, inquietação, são ego; nada além do ego. Se você tem problemas em sua vida, preocupações em sua vida, isto nada mais é que o ego. O ego cria problemas, misérias e sofrimento. O ego cria apego e fixações.

Numa recente reunião do grupo Asoka [13], uma dos membros me disse:

— Sabe, Reverendo, há algum tempo o senhor escreveu um artigo sobre o desapego no Boletim. Eu sempre carrego esse artigo comigo e ele já me salvou várias vezes. Tenho muitos problemas e, quando penso nisso, vejo que eles são causados pelo meu apego aos amigos, ao dinheiro, a certas palavras que os amigos dizem… todas as misérias que experimento são causadas pelo meu apego, pelo minha ignorância. E o seu artigo sobre o desapego… já nem sei quantas vezes ele me ajudou, está todo amarfanhado no fundo da minha pasta, mas ainda o carrego comigo. Eu só queria que o senhor soubesse o quanto aprecio aquele pequeno artigo.

Não me recordo quando escrevi aquele artigo, nem lembro o que escrevi. Esqueci por completo. Mas, naquela ocasião, devo ter sentido o desapego como algo muito útil para mim e, desse modo, minha expressão, minha experiência do desapego, colocada no papel, ajudou outras pessoas. Eu não tivera a intenção de ensinar os outros; estava simplesmente expressando a mim mesmo. Mas, como a vida é una, aquilo ajudou os outros. O modo como eu sofro é o mesmo modo como você sofre e o mesmo modo como o Buda Shakyamuni sofreu; e ele resolveu isso, assim como o fez Shinran, assim como o fez meu mestre Akegarasu. Eles viveram a vida. A vida deles é, em si mesma, ensinamento. Quando o sol brilha, todos nós nos beneficiamos. O Sol, o astro, não está consciente de estar sendo benéfico. O Sol nunca percebeu quaisquer motivos altruístas, nunca pensou, “Eu estou brilhando”. Ele apenas brilha. A vida também é assim. No meu entender, Ohigan é esse não-eu. Quanto mais ego encontro em mim, mais significado encontro no Higan. Não se trata do não-eu enquanto separado do ego, mas sim de, no próprio fato de perceber meu ego, eu alcançar o não-eu, o Higan.

Desse modo, para mim, o Higan é muito valioso para minhas próprias reflexões sobre os ensinamentos. E, este ano, o Higan significa para mim o não-eu, a vida do não-eu. Mas, é claro, o Higan, como geralmente é ensinado, consiste nos seis Paramitas [14]: compartilhamento, observância dos preceitos, paciência, esforço, meditação e sabedoria. Estas são as seis virtudes ou seis perfeições. Se você as levar a sério, cada uma delas conduzirá ao não-eu, à ausência do eu. A ausência do eu é o Higan, o mundo de Buda, o mundo do Nembutsu [15] o mundo da unicidade — a completa negação que é a completa afirmação. Essa é a verdadeira vida, a vida tal como ela é, o Ohigan.

Rev. Gyomay M. Kubose
In: Budismo Essencial – A arte de viver o dia-a-dia,
Ed. Budagaya & Axis Mundi – São Paulo – 1995.

Notas:

  1. Caminho do Meio: Um dos conceitos fundamentais do Budismo, sendo considerado por si só como sinônimo do próprio Budismo. É o ensinamento em que o Buda aconselha a todos a se afastarem dos extremos da vida e buscarem um modo de vida harmônico, pacífico e equilibrado. O próprio Buda Shakyamuni vivenciou este caminho, após ter experimentado por si mesmo os extremos de uma vida materialista, enquanto príncipe dos Shákyas e depois por seis anos, os extremos de um ascetismo religioso fundamentalista. Foi só quando abandonou os dois extremos e passou a se dedicar a uma vida mais equilibrada e harmoniosa, que pode chegar à Suprema Iluminação.
  2. Outra Margem: Simbolicamente o Mundo da Iluminação, sendo esta margem o Mundo do Sofrimento e da Ignorância.
  3. U.R.S.S.: A extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. (O texto original “Everyday Suchness” foi escrito no ano de 1967).
  4. Prajnaparamita-Sutra: O Sutra da Perfeição da Sabedoria.
  5. Sunyata: (ou shunyata) O conceito do “Vazio Absoluto” ou “Vazio Cósmico”.
  6. Suchness: Não existe em português uma tradução perfeita para o termo em inglês suchness. A expressão que escolhemos para traduzi-lo terá a conotação de qualidade essencial, de qüididade, da essência de uma coisa, do conjunto das condições que determinam um ser particular. Ou, nas palavras de William Gilbert, presidente da Associação Budista Americana, em seu prefácio à edição original deste livro, “O que é suchness? É a coisa tal como ela é e a vida tal como ela é. É a verdade tal como ela é. Suchness é o mundo, vazio de artificialidades ou maquiagens. É o “sonomama” em japonês e o “Tathata” em sânscrito. Uma rosa é uma rosa; um lírio é um lírio; e eu sou eu. Este é o mundo do suchness!” (Nota do tradutor da obra Everyday Suchness para o português).
  7. Samsara: A Roda dos Renascimentos, onde os seres estão aprisionados pelo processo de Ignorância Primordial ao Eterno Devir no Mundo do Sofrimento do Nascimento e Morte.
  8. Nirvana: Literalmente “extinção”. Estado Incondicionado do Ser, atingido através da extinção dos desejos, apegos e paixões mundanas no momento da Iluminação.
  9. Shin-Shû: Abreviação de Jôdo-Shin-Shû (Verdadeira Escola da Terra Pura), também conhecido como Budismo Shin, um dos ramos japoneses do Budismo Mahayana da linhagem da Terra Pura, que tem como base os ensinamentos budistas, assim como foram transmitidos pelo Buda Shakyamuni e mais tarde transmitidos pelos patriarcas da Índia, China e Japão, e amplamente divulgados pelo Mestre Shinran (1173-1262).
  10. Outro Poder: (em japonês: Ta-Riki) O Poder Salvífico do Buda Amida, através da concretização dos seus 48 Votos, dentre os quais se destaca o 18º Voto, também chamado de Voto Original; em contraposição ao Auto Poder (em japonês: Ji-Riki) que representa o poder do ego limitado e sujeito ao nascimento-e-morte.
  11. Hônen Shônin: O Mestre Hônen, também conhecido como Genku (1133-1212) foi o 6º patriarca da transmissão da Doutrina da Terra Pura e fundador do Jôdo-Shû (Escola da Terra Pura) no Japão.
  12. Hongan: “Voto Original” que se refere ao voto feito pelo Buda Amida, ainda em seu estado causal como Bodhisattva Dharmakara (Hôzô Bosatsu) de que todos os seres que nele confiassem a sua fé e recitassem o seu Nome Sagrado através da recitação do Nembutsu (a recitação da fórmula: “Namu-Amida-Butsu”) obteriam um nascimento derradeiro na Terra Pura da Suprema Felicidade (Gokuraku-Jôdo / Sukhavati), estando garantida assim a obtenção Iluminação; e que se isso não acontecesse, que ele também jamais atingisse a Suprema Iluminação.
  13. Grupo de estudo do Budismo, criado nos Estados Unidos pelo autor (Rev. Gyomay Kubose).
  14. Paramita: Virtude ou Perfeição. Normalmente se refere às Seis Práticas Virtuosas que devem ser realizadas por todos aqueles que seguem os ensinamentos de Buda.
  15. Nembutsu: Recitação do Nome Sagrado do Buda Amida, através da fórmula “Namu-Amida-Butsu”.

Pensamentos para o Ano Novo

By | Reflexões budistas | No Comments

“Shinnen akemashite omedetô gozaimassu”.
Em japonês “Feliz Ano Novo”.
Significa, literalmente, congratulações por um novo ano que se “abre”.

Algumas pessoas dizem que enviar cartões desejando Feliz Ano Novo é uma simples formalidade. Para mim, não é uma formalidade. É uma ocasião importante e oportuna para cumprimentar muitos amigos. Para mim, é uma época muito feliz. Tenho negligenciado muitos amigos durante o ano, sem lhes escrever ou telefonar e gostaria de visitá-los pelo menos uma vez, no Ano Novo, para dizer olá ou enviar cumprimentos a fim de que eles saibam que estamos todos bem.

Muitas pessoas me mandam cartões. Cada cartão traz um cumprimento agradável e é realmente uma alegria recebê-los. Há pessoas que avisam que se mudaram e outros informam mais um nascimento na família ou a perda de unte querido. Este ano, enviei mais de mil cartões. Embora minha filha tenha me ajudado, dei a cada um deles tanta atenção como se estivesse visitando meus amigos pessoalmente. Meu pensamento estava com eles. É uma época maravilhosa, uma ocasião excelente para se enviar cartões de saudação.

O Ano Novo só chega para aqueles que lhe dão as boas-vindas. Afinal de contas, somos nós que fazemos um novo ano. Ele está na nossa cultura; está na nossa mente. Existem diferentes Anos Novos, tais como o Ano Novo chinês e o Ano Novo judaico, cada um de acordo com suas próprias tradições. A menos que nós o criemos, o Ano Novo não existe. Não acho que exista um Ano Novo na vida de um cachorro. Por isso, não devemos assumir que o Ano Novo é uma simples formalidade. Devemos fazer dele um novo ano, fazer dele uma coisa importante.

Hoje em dia, estou muito sensível à cordialidade. Houve épocas em que me sensibilizei com a justiça; outras, em que eu era sensível à razão e à racionalidade, e, às vezes, pensei em dinheiro e saúde. Estas coisas são importantes, disso não há a menor dúvida. Mas, hoje, sinto um anseio profundo pela cordialidade da vida.

Este ano, meus dois poemas de Ano Novo são:

Com um coração cordial,
Junto às pessoas
Eu seguirei em frente.
Ah! Este bom ano!

Mais que o dinheiro, mais que a razão,
Mais que tudo nesta vida,
Como anseio por um cordial coração humano!

É a cordialidade que faz a vida desabrochar. O falecido Dr. Kuki disse certa vez que se tornou budista porque a vida de um budista é cheia de cordialidade. Quando leio os relatos e ensinamentos de Buda Gautama, vejo que mais pessoas se tornaram seus discípulos por causa de sua profunda compreensão e cordialidade do que por sua lógica ou racionalidade convincentes. É por isso que não existem missionários propagando o budismo. O mais importante é que cada budista viva sua boa vida budista.

Outro pensamento para o Ano Novo é o caminho do “deixar ir”, do desapego. Agarramo-nos demais a muitas coisas. Criamos dificuldades, tensões e problemas porque somos muito possessivos e apegados. Precisamos aprender a doutrina do desapego e do “deixar ir”. “Deixar ir” não que dizer descuido ou negligência, assim como desapego não quer dizer indiferença ou distanciamento. É apenas libertar-se dos apegos e da possessividade.

Quando você fizer alguma coisa, faça-a com todas as suas forças. Ponha a sua vida nela. Mas não a possua nem se deixe possuir por ela. Não se agarre a ela. Quando ela estiver concluída, deixe-a ir.

Muitas mães matam seus filhos únicos por causa de um amor aferrado ou possessivo. A mãe deve deixar o filho ir quando ele estiver crescido, assim como os filhotes são afastados pela mãe leoa. Os amantes devem amar, mas não ser proprietários um do outro; quando o amor se transforma em propriedade, está arruinado. O dinheiro é uma coisa maravilhosa e muito importante na vida moderna, mas, quando um indivíduo se agarra a ele, torna-se avarento; e quando se está possuído pelo dinheiro, não existe vida. Se nos agarramos à oposição, ela se transforma em raiva. Se nos agarramos ao bem-estar, ele se transforma em avidez.

É muito fácil aferrar-se às palavras e ações que os outros disseram e fizeram no passado; com isso criamos problemas. Agarramo-nos ao passado e negligenciamos o presente. O mundo e a vida estão continuamente mudando; e assim, em vez de nos apegar ao passado, devemos viver uma vida nova e revigorada a cada dia. E tampouco devemos nos agarrar ao futuro e negligenciar o presente, porque o futuro é desconhecido e ainda está por vir. Devemos viver o máximo no presente.

Em última análise, todas as coisas neste mundo e nesta vida surgem e se vão à vontade delas. Permita que o Caminho dirija os caminhos e deixe ir seus próprios apegos. Esta é a maior das libertações. Nem mesmo à vida devemos nos apegar, mas deixá-la ir, e então seremos capazes de viver livremente. Muitas mortes foram transcendidas pelo desapego.

Estes são os meus pensamentos para o Ano Novo.

Rev. Gyomay M. Kubose
In: Budismo Essencial – A arte de viver o dia-a-dia,
Ed. Budagaya & Axis Mundi – São Paulo – 1995.